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De um artigo de Desidério Murcho na edição de sexta-feira passada do Mil Folhas, no Público, sobre um livro do filósofo Peter Singer, Como Havemos de Viver? A Ética Numa Época de Individualismo.

«(...) qualquer raciocínio ou decisão ética tem de ter em conta todos os seres moralmente relevantes afectados pelas nossas decisões e tem de avaliar imparcialmente os interesses de todos esses seres. Assim, apesar de ser uma excelente ideia, do ponto de vista do Dr. Pato-Bravo, que ninguém excepto ele possa fugir aos impostos, esta ideia é imoral, porque é arbitrária: não há qualquer razão para colocar o interesse do Dr. Pato-Bravo acima dos interesses de todas as outras pessoas. Do "ponto de vista do universo" (...) os interesses do Dr. Pato-Bravo têm de ser imparcialmente comparados com os interesses dos outros.
Porque somos sociais, temos sentimentos altruístas naturais pelos nossos filhos, família, vizinhos, bairro e país, aproximadamente por esta ordem. Porque somos racionais, temos dificuldade em deixar de "olhar por cima do nosso ombro", isto é, temos tendência para olhar para nós de um ponto de vista objectivo. A angústia existencial acontece quando, ao olhar para nós desse modo, compreendemos que a nossa vida só tem valor para nós mesmos. E, por mais valor que tenha para nós mesmos, o facto de não ter valor de um ponto de vista universal ou objectivo deixa-nos sempre um amargo na boca.»


Interrompo aqui a citação para dizer que fiquei verdadeiramente assombrado, quando estava a ler o artigo, com a clareza dos problemas expressos nestes dois parágrafos, e como eles vêm tão exactamente ao encontro de duas das minhas maiores dúvidas. E no meu espírito obtuso e defeituoso, estas duas questões (a de tentar encontrar uma razão para não fazer o mal quando todos os outros o fazem, e a de perceber qual é o valor da minha existência, e como o medir) têm muito a ver com o facto de eu não ter fé religiosa, de eu não acreditar em deus, entendido este como uma entidade estranha a mim onde radique toda a minha razão de ser. Em que podemos fundar a nossa existência quando não temos o radical deus que nos justifique.

E as respostas? O artigo continua, e estendo um pouco mais a citação.

«Culturalmente muito influenciada pela ética de Kant e pelas religiões do livro (os teísmos judaicos e cristãos, sobretudo), a mundividência ocidental tornou a vida ética uma opção contra os nossos melhores interesses. É assim que há a ideia de que quem opta por viver uma vida ética é um papalvo, pronto a ser explorado pelos Patos-Bravos. (...)
Para muitos leitores, uma resposta ética ao problema do sentido da vida pode parecer algo insípida. Isto acontece porque nos tempos que correm a vida privada e familiar adquiriu uma importância exacerbada. Em grande parte, todavia, é precisamente o fechamento de horizontes provocado pela atribuição de uma importância exacerbada à vida privada e familiar que provoca a angústia existencial contemporânea. Qualquer resposta sólida ao problema do sentido da vida tem de propor a ultrapassagem do fechamento da vida contemporânea na egocêntrica esfera privada e familiar.»


Não sei se fiquei muito melhor depois disto, mas impressionou-me muito o artigo e sobretudo a forma como ele dialogou comigo. Acho que devia procurar o livro (editado pela Dinalivro e traduzido por Maria de Fátima St. Aubyn). Talvez a resposta passe por perceber com clareza a pergunta.
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