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98 octanas
rosas
innersmile
Fui ontem ver 98 Octanas, o mais recente filme de Fernando Lopes. Tinha muitas expectativas em relação ao filme: gosto de alguns filmes do realizador (por exemplo, d’O Delfim, do Fio do Horizonte, para já não falar de três filmes especiais da história do cinema nacional, Belarmino, Uma Abelha na Chuva e Nós Por Cá), tinha uma curiosidade enorme em conhecer o trabalho de João Lopes, que é um dos meus críticos de cinema preferidos (e que já tinha co-escrito o argumento do filme anterior de Fernando Lopes, Lá Fora, que eu não vi), e, por último mas não em último, a banda sonora é do Bernardo Sassetti, que eu adoro.
A primeira nota a salientar do filme é a firmeza da linguagem. Não sei como é que hei-de explicar isto melhor, mas há no trabalho de câmara, na forma como as sequências se estruturam, como o plano se define, uma grande solidez. Note-se que não estamos a falar de uma narrativa meramente funcional, que viva ao serviço do mero entretenimento. Estamos a falar de ‘cinema’, no sentido mais artístico do termo, em que prevalece o desejo de ver cinema, de ver a arte das imagens em movimento, um objecto que satisfaça o desejo de ver um filme, e não a mera vontade de ser distraído durante 90 minutos.
Mas se é claro que Fernando Lopes tinha um filme para fazer, qual fosse o de mostrar por imagens a possibilidade de um lugar de errância, de deriva, já me parece mais duvidoso que tivesse uma história para contar. E o filme soçobra na incapacidade de resolver o destino dos personagens. Sim, porque mesmo o mais errante dos personagens tem de ter um destino, esteja ele inscrito nas estrelas ou no asfalto. O que sentimos quando estamos a ver 98 Octanas é que se o filme acabasse a qualquer momento, isso seria mais ou menos indiferente para o destino dos personagens. Talvez porque menos do que personagens, Dinis e Maria são figuras, nas quais o filme parece que tropeçou quando procurava os seus protagonistas da estrada. São pouco, para dar ao filme o fôlego que a capacidade de filmar de Fernando Lopes estava a pedir. Aquela firmeza do olhar precisava de personagens que vivessem intensamente o seu destino, mesmo que fosse um destino de deriva.
Não sei se vou dizer um enorme disparate, mas paciência. Quando estava a ver o filme, lembrei-me várias vezes de dois filmes de que gosto muito, Peixe-Lua e sobretudo Quaresma, e lembrei-me deles com um sentimento de que não é José Álvaro Morais quem quer. Não sei se isto explica melhor o que é que eu achei de 98 Octanas.

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