September 13th, 2006

rosas

timbó

Uma das coisas mais surpreendentes que o livejournal me proporcionou foi o contacto com algumas pessoas ‘conhecidas’, normalmente na sequência de entradas no innersmile em que eu falava delas, ou melhor, das suas obras. Acontece que eu sou muito desajeitado nesse tipo de contactos, e normalmente eles perdem-se depois de umas breves trocas de mails. Apenas num caso resultou um encontro pessoal, que foi um dos mais inesquecíveis da minha vida, apesar de, muito provavelmente, se ter tratado de um equívoco. Noutros casos, as pessoas em questão tornaram-se bloggers, o que permite um certo acompanhamento. Dá-me, no entanto, um certo gozo (uma vaidadezinha) eu já conhecer a obra dessas pessoas antes, ou mesmo muito antes de se terem tornado vedetas da blogosfera.

Uma das primeiras pessoas que encontrei virtualmente por causa do innersmile foi o Tiago Torres da Silva, que é escritor e poeta sobretudo de canções. Já aqui tenho falado no TTS, nomeadamente por causa do seu blog, Canções do Tiago. O TTS deixou uma mensagem numa entrada muito antiga do innersmile a propósito de uma referência que eu tinha feito a um disco da Né Ladeiras, para o qual ele tinha escrito, em parceria com o Chico César, muitas das canções.
Tudo isto para chegar a Timbó – aventuras de um português no Brasil, o livro que o Tiago Torres da Silva publicou recentemente. Trata-se de pequenos textos, em jeito de crónicas jornalísticas (ou entradas de um blog), que relatam uma estadia de quatro meses do autor no Brasil. Vou a pouco menos de meio do livro e estou a gostar bastante, é um daqueles livros muito divertidos e muito pessoais, em que o olho do autor, a sua perspectiva, é tão importante como o seu talento para fazer com que os relatos ganhem vida aos olhos do leitor. E tem uma coisa fantástica, que é a perspectiva do autor ser muito fascinada, ele escreve para dizer bem, para dar conta do seu maravilhamento, e eu acho isso absolutamente delicioso. É como quando falamos de uma pessoa, ou mesmo de uma coisa, que amamos – mesmo quando chamamos a atenção para os seus defeitos, para as misérias, é sempre com o coração apaixonado. Por isto, tanto quanto um retrato acerca do Brasil, o livro é uma história de amor entre um homem e um país, um povo e uma cultura.

Logo num dos textos iniciais, o TTS conta que no dia em que chegou a São Paulo, depois de se instalar, correu a passear pelas ruas da cidade. Entrou numa Fnac e subitamente começou a ouvir no sistema da som da loja a canção Duas Nuvens, escrita por ele e pelo guitarrista Pedro Jóia, e interpretado pelo Ney Matogrosso no seu disco mais recente Canto em Qualquer Canto. O TTS conta muito bem a forte comoção que sentiu ao ouvir num lugar tão público um cantor da dimensão do Ney Matogrosso a cantar palavras que ele próprio tinha escrito na solidão da sua secretária em Lisboa, e da vontade que sentiu de desatar a gritar a toda a gente que tinha sido ele a escrever a letra daquela canção.

Eu sei que não se compara em nada, mas achei graça porque no próprio dia em que eu li este texto do livro do Tiago Torres da Silva, tinha descoberto, por mero acaso, e quando andava no google a tentar localizar uma entrada antiga do innersmile, que o site oficial do Ney Matogrosso, na parte relativa à imprensa, tem a reprodução, devidamente referenciada, da entrada que eu escrevi a propósito do concerto que o Ney deu em Coimbra, no passado mês de Julho. Ok, eu sei que o Ney Matogrosso provavelmente nunca leu aquilo, mas já me dá um gozo incrível só o facto de saber que alguém ligado à produção do site leu o artigo e o achou com valor suficiente para o transcrever para o site.