September 8th, 2006

rosas

de amor e de sombra

Um dos preconceitos que tenho é em relação a best-sellers. Quando começa aquela onda de haver um livro que toda a gente está a ler, a minha tendência é para nem chegar perto. É um preconceito idiota, é verdade, e que só funciona em relação aos livros. Se se tratar de um filme, por exemplo, vou logo na primeira ocasião a correr para a fila.
Talvez tenha sido este preconceito que me manteve afastado, durante tantos anos, dos livros da Isabel Allende. Aliás, começou pelo facto de, tanto quanto me lembro, eu não ter achado grande piada ao filme A Casa dos Espíritos (a única coisa excitante que me lembro do filme é que havia um plano onde apareciam as Amoreiras!)
Há poucas semanas, uma grande amiga minha intimou-me a ler um livro da IA, por se tratar da sua autora preferida. Eu e essa minha amiga partilhamos um grande gosto pela leitura e os livros são um dos nossos interesses comuns. Emprestou-me um dos primeiros livros da escritora, De Amor e de Sombra, ainda por cima numa edição já velhinha, em que o papel tem um cheiro delicioso.
Faltam-me poucas páginas para terminar o livro, e estou a gostar bastante. Acho que a autora tem evidentes capacidades romanescas, grande facilidade em caracterizar personagens e situações, e a escrita é simples e ligeira.
Mas o que mais estou a gostar do livro é mesmo a história, ou melhor, não tanto a história em particular do casal de protagonistas, mas o fundo político em que a história se insere e que a marca em definitivo. Na minha opinião, o grande mérito da autora é conseguir transmitir a atmosfera pesada e insegura que se vive sob regimes totalitários, dar-nos a experimentar o travo amargo de um quotidiano dominado pela ameaça, pelo medo e pelo segredo. São muito vívidas as impressões transmitidas pelo livro, provocando mesmo, graças ao poder sugestivo da escrita, uma certa perturbação.
rosas

united 93

A primeira nota a propósito do United 93, é que me comovi muito com o filme. O que serve para dizer que não consigo ter nenhuma distância, analítica ou crítica, em relação a ele. E para dizer ainda que não é fácil organizar um discurso sobre ele.
Além disso, não é possível olhar para este filme como um puro objecto cinematográfico, ou seja abstraindo da realidade que o insufla. De facto, e é isso que é radicalmente assombroso no 11 de Setembro, continuamos a olhar para as imagens, mesmo para estas imagens ‘artificiais’, encenadas, de um filme, e a sensação de incredulidade permanece intacta, a sensação de que estamos a viver um momento que fica muito para além de tudo o que somos capazes de percepcionar ou imaginar. É este, na minha opinião, o poder dominante, e transformante, do 11 de Setembro: somos capazes de imaginar um tsunami que provoca milhares de mortos, somos capazes de imaginar um terramoto devastador, somos até capazes de imaginar uma chuva de meteoritos que dizima a espécie. Mas não somos capazes de imaginar um avião comercial a entrar por um arranha-céus cheio de escritórios. Porquê? Talvez porque o 11 de Setembro seja uma tragédia puramente humana, é ele próprio fruto da criação humana, é uma construção espiritual, é o resultado da nossa capacidade intelectual e do desenvolvimento tecnológico que conseguimos imprimir. É, em suma, um produto da civilização, daquilo a que estamos habituados a ver como avanço e como progresso. O 11 de Setembro não é, nesse sentido, catastrófico, não resulta de uma excepcional conjugação de factores. É, pelo contrário, de uma banalidade essa sim assustadora. Nada podia ser mais corriqueiro: um grupo de tipos entra a bordo de um avião de uma carreira comercial, e em vez de desembarcar 4 ou 5 horas depois, como todos já fizemos dezenas de vezes, em assuntos tão quotidianos como o trabalho ou a família, em vez disso, esbarram-se contra um edifício de escritórios onde há milhares de pessoas tão banais como eles, a tratar da sua vidinha quotidiana. ‘Isto’, esta rotina, que julgávamos ser a essência da nossa vida moderna, é afinal uma arma mortífera, de destruição maciça.

Como se vê, é impossível falar do filme sem a realidade dominar por completo a equação. De qualquer forma, vale a pena tentar. O filme divide-se claramente em duas partes. Na primeira, assistimos ao instalar da crise. Ao modo alarmante como de um momento para o outro, um passo de cada vez, se instala o caos e a desorientação. Cá está, de novo, a imensa fragilidade da nossa civilização quotidiana. Ao mesmo tempo, vamos assistindo, quase como se de uma reportagem se tratasse, às operações normais a bordo do voo United 93, esse repetir de rotinas, de gestos banais, a conversa de circunstância, os procedimentos normais de segurança (que ironia), a refeição ligeira. A segunda parte do filme começa com o momento em que o avião é sequestrado, e é dominada sobretudo com o processo de percepção do que se está a passar por parte dos passageiros e com a sua tentativa de tomar o comando do avião.
Esta divisão não é vã, e corresponde a uma das teorias do filme, a de que os passageiros do voo United 93 foram as primeiras pessoas que viveram (no que isso tem de pró-activo, ou seja, perceber a realidade e tomar decisões) na época pós-11 de Setembro. O que aconteceu a bordo daquele avião, aconteceu porque, escassos minutos antes, tinha acontecido o 11 de Setembro, isto é, tinha havido dois aviões de carreira comercial que tinham embatido contra duas das maiores torres de escritórios do mundo.
Esta tese é importante para o filme, porque de certo modo reabilita os passageiros do avião como protagonistas de um momento histórico, resgatando-os do olvido, uma vez que o 11 de Setembro foi, do ponto de vista iconográfico mas também, e mais importante, do ponto de vista cultural, dominado pelo desastre do World Trade Center.
Esta circunstância de o filme ter uma tese, uma mensagem, que pretende passar, pode constituir, afinal, o ponto de partida para reconhecer ao filme importância enquanto tal. Não estamos perante um mero documentário noticioso, que se limita a reportar, de forma mais ou menos objectiva, um conjunto de factos. Ao contrário, trata-se de um filme, de uma obra de arte com autoria. Alguém fez este filme porque achava que tinha alguma coisa a dizer. Havia uma história que era preciso contar. É este o sentido do filme, é isto que o resgata enquanto filme.
Alguém tem uma história para contar. A partir deste momento, podemos, mais serenamente, olhar para o filme. Perceber se a história está bem contada, perceber a linguagem, os recursos narrativos, que o realizador utilizou para contar a sua história.