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não ponho esperança em mais nada
rosas
innersmile
Há muito tempo que não actualizava a minha lista de links, na página da userinfo, e não falava aqui dos blogs, fora do livejournal, que vou acompanhando de forma mais regular e frequente. O que em relação a dois blogs, ambos de poesia e literatura, resultava numa tremenda injustiça.

Falo, em primeiro lugar, do Ao Longe os Barcos de Flores, que é parte de um verdadeiro serviço público que a Amélia Pais desenvolve na Internet. O blog é actualizado diariamente, por vezes mais do que uma vez por dia, tem secções fixas, e divulga poesia, literatura em geral, textos sobre literatura. Além do blog, a Amélia mantém uma mailing list que é um verdadeiro tesouro de descobertas. Finalmente, é co-editora de um ‘mail-zine’ que se publica mensalmente (declaração de interesses: o Ilha Negra já fez a caridade de publicar uns poemas que eu cometi). Graças à Amélia tenho descoberto coisas fabulosas, poemas de autores de que apenas conhecia o nome, ou, melhor ainda, muitos de autores de quem nunca tinha ouvido falar. É de elementar justiça agradecer publicamente à Amélia o imenso trabalho de divulgação da poesia que ela tem feito de forma muito regular e consistente.

Outro dos blogs de que também já chego muito atrasado para destacar aqui é o Fazendo Caminho, versão II, da L. Secretamente, considero este blog um pouco a irmã, mais sábia, do À Sombra dos Palmares. Basicamente, o Palmares trilha alguns dos caminhos que o Fazendo já fez, nomeadamente o da poesia de Moçambique. Mas o Fazendo é mais abrangente, já que publica poesia de toda a lusofonia. Mas a razão porque considero o Fazendo Caminho da família do Palmares tem sobretudo a ver com o facto de também lhe adivinhar uma certa deriva, uma errância, um blog que é feito ao ritmo das descobertas, dos pequenos prazeres, até do ócio de quem o mantém.

Finalmente, destaco um outro blog de descoberta mais recente, sobre cinema, o Axasteoquê?!? Normalmente os blogs sobre cinema, e sobre arte e cultura em geral, são sobretudo informativos, ou melhor, anunciativos, limitando-se a dar notícia de uma estreia, ou de um concerto, ou de um espectáculo, etc. E, sem querer ser maldoso, devo dizer que acho a maior parte dessa informação absolutamente irrelevante. Ora, o que eu quero ler num blog é uma leitura, não um anúncio. Quero conhecer outras opiniões, perspectivas que me tinham passado ao lado, descobrir novas pistas. E isso é muito raro encontrar. Por isso destaco o Axastoquê?!?, por ser dos poucos blogs sobre cinema onde o seu autor se atreve a pensar sobre os filmes e a dar opiniões sobre eles. E isso é bom porque me permite aprender sempre mais.



Para assinalar a actualização dos links, trago aqui uma das inúmeras jóias que a Amélia me tem dado a descobrir. Esta veio (ontem) através do mail, trata-se de um poeta romeno, Marin Sorescu, de quem nunca tinha ouvido falar. Mas uma rápida pesquisa no google mostra que é um poeta consagrado e que realmente a minha ignorância é do tamanho do mundo. A versão do poema que segue, intitulado SHAKESPEARE, foi a que a Amélia me mandou. Neste link há muitos mais poemas, todos em versão trilingue (romeno, espanhol e inglês), nomeadamente este que aqui vai:

Shakespeare criou o mundo em sete dias.

No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos -
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor, do desespero
O sabor do ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.

Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os directores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espectáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco.