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(no subject)
rosas
innersmile
Diz que, por causa do aquecimento global, as estações do ano começam mais cedo. Acredito. Aliás, já tinha reparado que este ano a habitual depressão outonal também começou mais cedo.

dois filmes
rosas
innersmile
Parece que já passou a época do fastio cinéfilo. Como ainda não passou a época de só passar porcaria nas salas de cinema, resta a via dos dvds. Que têm a vantagem de terem extras, o que prolonga o prazer dos filmes, mas tornam as sessões muito mais longas. Este fim de semana foram dois.

Vi finalmente Transamerica, que, a não ser que me tenha passado despercebido, não foi exibido em Coimbra. Achei o filme fantástico, uma pequena (no sentido da ambição e dos meios) pérola de humor, ternura e honestidade. Muito se disse que o filme era um veículo para a Felicity Huffman. E é, mas por uma vez isso é uma coisa boa. Sobretudo porque nada no trabalho da actriz se sobrepõe à personagem. Acreditamos em Bree no momento em que a conhecemos, de tal forma a actriz consegue essa coisa espantosa de trazer ao rosto e aos olhos da personagem toda a sua verdade, mesmo que estejamos no reino do artifício por excelência, com uma actriz a fazer o papel de um homem que está na última fase de se transformar em mulher (desconfio que se a Bree lesse esta última fase eu poderia contar com o seu sarcasmo, mas enfim vai assim just for the sake of the argument). É verdade que todo o filme repousa em Bree, e apenas nas breves sequências em que Fionnula Flanagan contracena o filme apresenta um outro personagem digno desse nome. Desperdiça-se, de certa maneira, a possibilidade que o road movie dá de ir criando pequenos mas marcantes personagens capazes de ir ilustrando o percurso da personagem principal. Mas o próprio facto de o percurso de Bree ser sempre muito solitário é muito coerente com o espírito da personagem. Outra coisa muito boa do filme, ou melhor da edição do dvd, foi trazer de novo à visibilidade a Dolly Parton e a belíssima canção que criou para este filme.

O outro filme que (re)vi foi Les Uns et Les Outres, o clássico de Claude Lelouche que foi um estrondoso êxito quando estreou no início dos anos oitenta. Não partilhei, na altura, do entusiasmo que o filme gerou nem a famosa banda sonora de Francis Lai e Michel Legrand, apesar de a ter ouvido muitas vezes e por isso a conhecer muito bem. Por todas estas razões tinha muita curiosidade em rever o filme. E de certa forma confirmei a impressão com que fiquei na altura, a de que o filme é muito mais ambicioso do que a sua concretização. A ideia inicial é sedutora: contar a história da Europa no meio século que precedeu o momento da sua feitura, ou seja desde o desencadear da II Guerra Mundial. Mas contá-la através das pessoas comuns (enfim, tanto quanto as pessoas do song & dance podem ser consideradas comuns), através dos percursos de duas ou três gerações de quatro núcleos familiares: um francês, um alemão, um russo e um norte-americano, ou seja aqueles que, na óptica de um francês, marcaram o mundo no período da guerra e do pós-guerra. O filme é feito com uma grande economia de diálogos (mas não de palavras) e com um sentido quase operático de encenação. E é precisamente aqui que o acho mais frágil e ineficaz, nessa capacidade de gerir todos os núcleos da acção, de cruzar os fios narrativos ao mesmo tempo que os faz desenvolver com coerência, e de fazer tudo isso ao ritmo da música que, pretende-se, seja o verdadeiro protagonista desta história de boa vontade.
Agora, o mais interessante desta revisão foi uma certa nostalgia que o filme cria em relação à época em que o vimos pela primeira vez, onde ainda havia espaço para uma visão do mundo (da Europa) marcada por uma certa inocência. Não deixa de ser significativo que o filme pretendia ser sobretudo uma história de pessoas, tanto que adverte logo de início para o facto de aquelas pessoas terem existido, ainda que com outros nomes e até com outras histórias. E ainda que o filme não dê espaço às personagens para assumirem a sua espessura, são no entanto sempre mais um esboço do que uma caricatura ou um estereótipo. Se bem que o filme contém já muitas contradições que são sinais do que se iria passar na Europa nos 20 anos seguintes, nomeadamente um certo diluir da cultura, ou das culturas próprias, alinhando nessa espécie de enorme e normalizador mínimo denominador comum que é a cultura pop de matriz norte-americana. Mas apesar disso é quase impossível ficarmos completamente imunes à candura deste retrato que Claude Lelouche traça de uma Europa que, no início dos anos oitenta, estava à porta do futuro. Não do seu, dela Europa, porque senão a frase era uma ‘lapalissada’ da pior espécie; falo no nosso futuro, de nós, os que tínhamos vinte anos quando o vimos pela primeira vez.
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