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augusten
rosas
innersmile
Conheci primeiro a prosa do Augusten Burroughs a ler as crónicas na Attitude e na Details, onde ainda se podem ler, ou pelo menos podiam na última edição da revista que eu comprei. Sabia pouco acerca do autor, mas sabia que tinha uma história pessoal um bocado estranha, por causa de certas referências que li ao seu livro de maior sucesso, Running wiht Scissors. Um dia destes encontrei à venda na Fnac aquele que julgo ser o seu mais recente livro editado, Magical Thinking: True Stories, uma colecção de textos curtos, de carácter autobiográfico, num estilo que fica a meio caminho entre a crónica e a memória.

A questão é que a escrita de Augusten é incendiariamente divertida. Um humor completamente desenfreado, naquele estilo (que eu tanto gosto) em que nos pomos em causa como modo de pôr em causa todos os outros e tudo o resto. Cada frase de Augusten é um achado de humor. Mesmo quando fala sobre assuntos muito dolorosos, sobre dramas e tragédias, é sempre inevitavel e deliciosamente divertido. Augusten tem a mistura de sarcasmo e ternura, tipo rebuçados de soda cáustica, que é a fórmula de sucesso de tanto humor norte-americano, nomeadamente aquele que passa pelos circuitos da stand up comedy (que não é, ao contrário do que muitas vezes se pratica por cá, a arte de contar de pé anedotas porcas).

Tenho devorado o livro, ontem não fiz outra coisa senão lê-lo. Ainda por cima o inglês é lisinho, inglês de jornal americano, lê-se com muita facilidade. Como já disse, cada frase é um achado. Seja porque resulta num epigrama (um pouco à maneira da Agustina Bessa-Luís, mas com muito mais humor, embora menos perfídia), seja porque é de uma ironia hilariante, doce e cruel ao mesmo tempo. Tanto que é difícil decorarmos apenas uma frase, ou mesmo seleccionar uma para pôr aqui. De qualquer forma, e só como ilustração do tipo de humor, num artigo sobre a sua calvice precoce o Augusten descrevia a sua cabeleireira como uma espécie de Sophia Loren que tenha tido muito azar na vida. É esta capacidade de concisão, de estabelecer a metáfora que caracteriza exactamente a situação que se pretende descrever, e ao mesmo tempo ser uma pérola de humor, que dá gozo e frescura à prosa.

Que eu saiba, não há nenhum livro de Augusten traduzido em português, ou pelo menos publicado em Portugal. E, no que ao torrão pátrio diz respeito, não me parece muito provável que alguma vez seja por cá publicado. Até por isso, vale a pena fazer uma visita demorada ao site de Augusten Burroughs, em www.augusten.com. Fica-se a conhecer um pouco (muito pouco, mesmo) sobre a adolescência completamente inacreditável do autor, sobre a sua longuíssima e profunda relação com a dependência, mas sobretudo toma-se contacto com o seu universo literário: extractos de livros, histórias, as crónicas da Details.