?

Log in

No account? Create an account

(no subject)
rosas
innersmile
«A possibilidade da experiência sexual diversificada – inclusive quanto ao sexo do parceiro –, o reconhecimento de sua legitimidade para mim e para os outros, sempre estiveram na base da organização da minha vida pessoal. E (...) toda a solidez da respeitabilidade que construí em minhas relações com meus pais, meus filhos e minhas mulheres sempre incluiu claramente esse complicador.»


«Dada a natureza dos meus desejos e à autorização que lhes concedem minhas convicções morais, creio que não me seria impossível levar uma vida predominantemente homossexual bem-sucedida, assim como, pelas mesmas razões e ainda pelo modo como o acaso me tem tratado, levo uma vida predominantemente heterossexual bem-sucedida. Mas nunca tratei disso publicamente. Nem o farei aqui além do que está dito. Detesto as duas formas de pressão diametralmente opostas que se exercem sobre os indivíduos para que eles tornem públicas suas acções mais intimas: de um lado, a exigência, por parte de grupos activistas, da adesão pública a um rótulo que defina o tipo das suas actividades sexuais (na verdade, uma exortação a que os que têm experiência homossexual "confessem" – deixando implícito que os outros não precisam confessar, não têm o que confessar), e, de outro lado, o que ainda é pior, o estímulo ao exibicionismo tedioso e grosseiro (além de frequentemente inverídico) que certa imprensa lança a pessoas mais ou menos famosas que resolveram então "contar tudo".
(…) [o termo bissexual] é demasiadas vezes usado seja por caretas para "denunciar" os que eles consideram homossexuais, seja por homossexuais que desejam amenizar a sua tipificação ou mesmo esconder a verdade da sua sexualidade.»


- Caetano Veloso, Vá ver o Ham-Let do Teatro Oficina (O Mundo Não É Chato)

the goodbye girl
rosas
innersmile
Um destes dias cheguei a casa dos meus pais e eles estavam às voltas de um armário com dezenas (centenas?) de videocassetes que eu fui gravando ao longo dos anos. Descobri no meio do monte o filme The Goodbye Girl, de 1977, que eu já nem me lembrava que tinha gravado. Visionei o filme de imediato, e apesar das condições miseráveis (gravei o filme em 1991, antes do cabo, quando as condições de visionamento da televisão dependiam do tempo e das administrações dos condomínios), voltei a gostar tanto do filme como quando o vi pela primeira vez no cinema, ou melhor, as primeiras vezes, porque vi e repeti logo de seguida.

A minha carreira de espectador de cinema é marcada por dois momentos distintos. O primeiro corresponde à infância e ao princípio da adolescência, em Moçambique. Predominam os clássico infantis dos anos 60, doses maciças de comédias italianas vistas à socapa no pavilhão do Ferroviário de Nampula, e a invasão de filmes de kung fu made in Hong Kong e de filmes de Bollywood no período a seguir à independência, e que eram a alternativa ao cinema norte-americano, proibido pelo socialismo pós-revolucionário. Ficaram-me desta época uma dezena de filmes absolutamente míticos (para mim, claro), uns que sempre me acompanharam, outros que fui recuperando, e alguns que nunca revi ou reencontrei e dos quais não guardo mais do que um ténue fio de lembrança.
Depois de um ano lectivo sem cinema, passei o verão de 77 em Lisboa, que serviu, entre outras coisas, para voltar a ir ao cinema. No final desse ano vim viver para Coimbra e começou uma fase de verdadeira cinefilia omnívora, em que vi tudo e sobretudo vi o grande cinema de autor, cinema europeu e o renascer do cinema norte-americano como grande indústria de entretenimento.
Nessa estadia lisboeta, houve dois filmes que me marcaram imenso e que tornei a ver quando passaram em Coimbra: Annie Hall, do Woody Allen, e esse de que comecei por falar, The Goodbye Girl, de Herbert Ross. Aliás, 1977 é um ano de ouro do cinema norte-americano: além dos dois referidos, foi ainda o ano de filmes como Star Wars e Close Encounters, de Júlia ou de Saturday Night Fever.

Tne Goodbye Girl foi escrito pelo dramaturgo Neil Simon, com base na sua peça de teatro. É uma típica história da Broadway: um jovem actor recém-chegado a Nova Iorque tem de partilhar o apartamento com a sua anterior locatária, um ex-dançarina de musicais e a sua filha. O clima, como se percebe, é o da comédia romântica: boy meets girl, boy and girl hate each other, boy and girl fell in love. O que torna o filme especial é, em primeiro lugar, o trabalho dos actores, sobretudo do Richard Dreyfuss, numa interpretação fantástica, cheia de energia e carisma, que lhe valeu o Óscar para melhor actor. Depois, o ambiente do filme, muito bem desenhado, balanceando nas doses certas a comédia e o romance, com pano de fundo de uma certa gana de viver nova-iorquina. Finalmente, o brilhantismo dos diálogos, que mantêm sempre o ritmo do filme, aguentam-no durante quase duas horas de duração que parecem voar, daqueles diálogos cheios de trocadilhos, de deixas e respostas, de punchlines certeiras, que apetece estar sempre a sublinhar para mais tarde citar.
Não se tratando de uma grande obra-prima, é um 'pequeno' filme irresistível e divertido, com personagens que vamos amando cada vez mais à medida que o enredo progride. Como disse, é um filme cheio de diálogos citáveis, sendo quase impossível destacar uma frase, um dito, entre tantos. Só a título de exemplo, fica aqui este, que mostra bem a mestria de Neil Simon na construção dos diálogos.

Lucy: I smell strawberries burning.
Paula: That's incense.
Lucy: What's incense?
Paula: It is what I'm feeling right now.
Tags: