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(no subject)
rosas
innersmile
YUCATECA

para a Ana

1.
Quem já fez a estrada que liga Coba a Valadolid sabe que a certo ponto da 280 uma linha férrea corta, sem guarda ou aviso, a rigorosa e comprida lista cinzenta de uma recta. A estrada, aqui, separa a selva mas une os homens.
Não cabe perguntar para onde segue este caminho de ferro, que, a avaliar pelo brilho polido dos carris, é usada com frequência. O perigoso cruzamento das duas estradas, a de ferro e a de macadame, seria uma armadilha fatal para os autocarros cheios de turistas, se não fosse o caso de haver uma meia dúzia de casas na cercania da passagem de nível, e salientes peões de ferro obrigarem os automóveis a quase pararem.
Um homem está sentado numa grade de cervejas vazia e voltada para baixo, no terreiro poeirento que se estende em frente a uma cantina. 'Tienda Esperanza' dizem as cores garridas do anúncio pintado sobre um muro amarelo descorado.
São cinco da tarde, e o homem pode estar sentado fora do alpendre, junto à estrada, porque aproveita a sombra alongada da pequena casa, que se projecta quase horizontal.
Desde há poucos minutos o azul pesado do céu começou a ser invadido por novelos de nuvens escuras. O homem olha para o céu, pensando se irá chover, mas se perguntasse alguém lhe explicaria que são nuvens apressadas, que atravessam a península vindas do mar e dirigindo-se para o golfo. Não choverá hoje nem nos próximos dias, dir-lhe-iam.

2.

«Esta terra é plana, senhor, e eu trago toda a sua planura nos olhos. Há dois mares, um de cada lado da península, e o abutre quando plana toca com a ponta das asas a areia da praia desses dois mares. Se olhar bem para os meus olhos, senhor, vai ver que eles são apenas um traço rasgado no rosto. Dizem que é para os proteger da luz e da poeira, senhor, mas para mim eles são assim rasgados porque trago nos olhos a lembrança do que viram os olhos dos meus ancestrais quando atravessaram os continentes e o estreito e o que viram foi esta planura, senhor.
Vim a pé, senhor. Veja como está gasta a sola dos meus chinelos. Veja como a bainha das minhas calças está suja da poeira das estradas. Apenas por companhia a orla da floresta e as asas do abutre. Saí da beira do mar depois do furacão, senhor. Havia de ter visto, senhor, o que o furacão fez às árvores. Arrancou-as do solo como se fosse palitos, sacudiu-as no ar misturando as copas e os ramos, e deitou-as com violência por terra, deixando-as numa pilha revolta e desarrumada. Às casas, senhor, o vento despiu-as dos frágeis telhados de colmo e entreteve-se a separar e a espalhar cada grão de barro. As mulheres voaram como pássaros e as crianças desapareceram no ar. Os homens pareciam meninos, aflitos atrás dos animais. Eu, senhor, eu sobrevivi porque assim como tenho a planura desta terra nos olhos, trago nas asas do nariz o cheiro do vento, e nas asas das orelhas o lado para que ele sopra, e assim, senhor, andei como os cães à procura dos caminhos mais livres do vento, sempre à procura das horas mais apressadas, rodeando as pedras que crescem na terra como as corcundas dos velhos.
Depois, quando o vento passou e os animais começaram a sair dos buracos inundados pela chuva, eu decidi caminhar, senhor, ir procurar o mar do outro lado da península. Queria encontrar uma cidade onde as ruas e os passeios tivessem árvores de flores como fogo, e praças tão antigas como as casas que as ladeiam, uma cidade onde houvesse pessoas que cantassem à noite ao som de guitarras que tocam sozinhas de encontro aos dedos dos músicos. Já viu, senhor, uma cidade onde as cordas das guitarras tocam sozinhas, vibrando de encontro aos dedos dos músicos? Onde a pedra das casas fosse sempre fresca, senhor. E onde as ruas se estendessem para lá do fim do olhar. Uma cidade onde os olhos dos cães falassem, senhor. Já viu, senhor, uma cidade onde os olhos dos cães falassem como se fossem pessoas? E onde os carros, à noite, quando os motoristas seguissem adormecidos ao volante, também falassem, senhor, uns com os outros ou com os cães dormindo nas soleiras das portas.
Era para essa cidade que eu queria ir, senhor, sonhava que ele estava à minha espera. Venho caminhando desde então, lendo a paisagem plana sob as asas aplanadas do abutre, a planura da terra com os montes de pedra e as árvores baixas como anões que se penduram nas costas uns dos outros. Veja, senhor, como está gasta a sola dos chinelos, e como ainda restam pedaços da poeira suja das estradas agarrados à bainha das calças.
Foi então, senhor, que ouvi de noite o rugido do comboio e decidi seguir o caminho de ferro, na esperança de que ele me levasse até à cidade. O comboio é um ser estranho, senhor. Atravessa desvairado a paisagem, põe em reboliço tudo à sua volta, interrompe a noite de todas as criaturas, e é como se não sentisse nada, como se todo esse tumulto que ele provoca não o afectasse em nada. Até a sua estrada, que eu percorri, é estranha. Dois traços de ferro que se prolongam para sempre, sempre juntos e no entanto sem nunca se tocarem, apenas ligados por desajeitadas e carcomidas traves de madeira. A estrada vai afastando árvores e animais à medida que caminhamos, senhor. Se olharmos para a frente, o mato é cerrado. Se olharmos para trás, de onde vimos, o mato é cerrado. O nosso caminho, que é aquele lugar onde estamos só no curto momento entre o lugar de onde vimos e o lugar para onde vamos, é uma pequena clareira na selva. Um lugar muito solitário, senhor, apenas interrompido pelo silvo tumultuoso do comboio. A grande vantagem do caminho de ferro, senhor, é que é impossível perdermo-nos. Aquelas duas linhas que nunca se tocam mas também nunca se afastam uma da outra, sabem sempre para onde vão. Podemos estar cegos, pode estar uma noite sem luar, que, apenas sentindo nos pés, cada uma a seguir à anterior, as traves que ligam as linhas, sabemos sempre que vamos ter a algum lugar.
Como na verdade me aconteceu, senhor. Veja como o caminho de ferro me trouxe até este lugar onde o senhor se encontrava à minha espera. Era aqui, junto de si, senhor, que eu tinha de vir, apesar de não o saber.»
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