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innersmile
Há algum tempo atrás morreu um grande amigo meu. Na própria tarde do dia da sua morte escrevi uma memória da nossa amizade. Para, penso eu, conseguir através de um relato sobretudo factual, dar alguma forma material a essa amizade que me ajudasse a lidar com o sentimento de perda.
Uma coisa curiosa é que quando comecei a escrever o texto decidi de imediato usar nomes fictícios. Acho que foi por uma questão de pudor, por, apesar do seu tom mais ou menos circunstancial, esse texto falar de outras pessoas, das suas vidas particulares, de coisas da esfera íntima.
Também por uma questão de pudor, guardei o texto e não o pus no innersmile, apesar de o ter escrito para o pôr aqui. Um destes dias reli-o e, como já passou algum tempo, acho que já o posso pôr. No entanto, e numa decisão que acabei de tomar, vou pô-lo em visão restrita para o pessoal da flist. Acho que é a primeira vez, em cinco anos de innersmile, que ponho uma entrada friends only. Pode ser que um dia destes a ponha pública. Mas para já fica assim.


Num fim de semana de Março de 1983 adoeci com febre. Depois de uma ida ao banco de urgência do antigo hospital da universidade, fui internado num pavilhão de doenças infecciosas, em Celas, com hepatite. Conheci então o Rolinho, que foi o médico que me tratou. Quando me apareceu uma enorme massa num testículo foi ao Rolinho que recorri e foi ele que me orientou para um urologista. Passei os dois anos seguintes a lutar contra um cancro. Por vezes encontrava casualmente o Rolinho, que sempre vinha ter comigo a perguntar como corriam as coisas, e outras vezes era a minha amiga Isa, recém licenciada em medicina e a fazer a especialidade, que me dizia que o Rolinho tinha perguntado por mim.
Entretanto perdemo-nos de vista e eu soube, aí por volta de 86, que o Rolinho tinha sido submetido a um transplante cardíaco, um dos primeiros feitos em Portugal. Foi uma surpresa enorme, porque eu nem sabia que ele era doente do coração, e um transplante cardíaco não é propriamente a coisa mais corriqueira do mundo!
Aí por volta de 1991 reencontrei o Rolinho no casamento da Lídia, uma das minhas maiores amigas. O Rolinho era grande amigo do Luís, o marido da Lídia, companheiros de juventude e colegas de profissão. Nessa ocasião, alguém me apresentou ao Rolinho que me reconheceu imediatamente e, lembro-me bem, comentou a quem nos apresentava que já nos conhecíamos “de outros Carnavais”. Pouco depois disto, o Luís perguntou-me se eu queria fazer parte de uma mesa de póquer que ele estava a organizar. Durante os quatro ou cinco anos seguintes, todas as semanas, religiosamente, normalmente às quartas-feiras, eu, o Rolinho, o Luís, o pai da Lídia e o Mendes, juntávamo-nos depois do jantar para sessões de póquer aberto, muitas vezes um mero pretexto para sessões de conversa animada e bem-disposta, e uma ou outra discussão mais acalorada.
Como o póquer só se pode jogar a dinheiro, tínhamos um esquema de pagar para a caixa, ou seja, quem perdia pagava mas quem ganhava não recebia. A parada era baixa e a mesa nunca subia muito. Uma noite muito má significava que se perdiam uns três contos, nunca muito mais do que isso. Dos cinco, apenas o Mendes era aquilo que se chama um jogador. Há uma diferença entre gostar de jogar e ser jogador. Tendo sido o último a entrar para a mesa, de início o Mendes tentou jogar forte mas cedo reparou que quando subia muito a fasquia ficava a jogar sozinho e por isso rapidamente alinhou com o nosso nível de meninos à missa. Lembro-me de em duas ou três ocasiões, o pai da Lídia trazer um amigo, já velhote, que também era um jogador, e nessas noites íamo-nos todos retirando e ficávamos, entre o fascínio e o horror, a ver aqueles dois tipos a devorarem-se com unhas e dentes.
Com o dinheiro do jogo, íamos organizando excursões gastronómicas familiares. Aos poucos, corremos boa parte da zona centro atrás dos restaurantes mais conceituados. Foi a fase da minha vida em que conheci mais restaurantes e onde sabia com exactidão onde é que se comia bem, num triângulo entre as zonas de Leiria, Viseu e a Figueira da Foz. Conheci assim a família do Rolinho, a mulher e as duas filhas, uma delas já nascida depois do transplante.
Também por esta altura, o Rolinho perguntou-me um dia se eu não o queria ajudar a formar uma ONG para apoio a doentes com sida. Começámo-nos a encontrar com um grupo de pessoas, normalmente ao fim da tarde, a planear as coisas. As circunstâncias que favoreciam o aparecimento da ONG alteraram-se e a ideia nunca se concretizou. Mas ficaram algumas idas nocturnas a Lisboa participar em reuniões com outras ONGs, algumas reuniões com as chamadas forças locais para angariar apoios, e, sobretudo, as reuniões do grupo, que eram pouco produtivas mas muito divertidas.
Entretanto no final da década passada, a mesa de póquer foi esmorecendo. Começámos a faltar algumas semanas e rapidamente o hábito perdeu-se. Os encontros foram-se tornando raros e casuais. Eu ia encontrando o Rolinho por acaso, almoçámos algumas vezes juntos, mas a maior parte das vezes ia sabendo notícias dele através dos amigos comuns. Soube que, na última meia dúzia de anos, o Rolinho se tinha divorciado, que se tornou a casar e que teve outra filha, a terceira, e segunda depois do transplante. Almocei, no último ano, duas ou três vezes com ele e a mulher, porque nos encontrámos por acaso no mesmo restaurante. Hoje, ao início da manhã, recebi um telefonema a dizer que o Rolinho faleceu. Finalmente o coração tinha resgatado a vida do Rolinho.
Sinto muito a sua morte. Por se tratar de um amigo, e de um amigo de há mais de vinte anos, por ser alguém com quem privei muito, mas sobretudo por ser alguém a quem me ligavam episódios marcantes da minha vida, e por ser das poucas pessoas que me conhece desde esses tempos difíceis. Fiquei comovido, naturalmente, com o desamparo da família. Mas fiquei muito triste com o desaparecimento do próprio Rolinho. Apesar de achar que se houve alguém que fez por merecer cada segundo de vida, foi ele. Nunca se entregou à doença. Aproveitou o transplante e converteu-o num bónus que durou mais vinte anos. E que o Rolinho aproveitou da melhor maneira, a viver, a amar mulheres, a ter filhas, a trabalhar, a divertir-se, a comer e a beber bem. Se a vida de algum modo foi ingrata para com o Rolinho, o Rolinho fez negas a essa ingratidão e gozou-a com vontade. Por isso, nesta hora de tristeza, não sinto que a vida finalmente tenha ajustado contas com o Rolinho e reclamado uma coisa que há vinte anos lhe pertencia. Sinto antes uma espécie de alegria, por termos tido, todos os que o conhecemos e com ele privámos, o privilégio de sermos seus amigos e de termos usufruído da sua companhia e da sua personalidade durante estes vinte anos em que foi sempre seu o coração que lhe bateu no peito.

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Dois pontos prévios.
O primeiro para ressalvar que uma decisão de um tribunal é uma decisão técnica, não é, nem nunca pode ser, uma reposição ou uma reparação da realidade. O direito fez-se para nos proteger, mas para nos proteger de nós mesmos. O direito é assim uma espécie de poder que, quando estamos mais distanciados e racionais, delegamos em outros, para esses outros julgarem em nosso nome quando o nosso olhar não consegue ser tão distanciado e racional. Por isso, a decisão de um tribunal é uma decisão técnica, é uma decisão produzida dentro de um determinado sistema, no âmbito de um conjunto de regras, que, para nossa defesa, não podem ser postas de lado atendendo às circunstâncias do caso concreto.
O segundo ponto para dizer que não acho que ninguém ganhe rigorosamente nada em submeter crianças à necessária desumanidade de qualquer sistema judiciário e penal. Não defendo que crianças sejam submetidas a penas duras, de prisão ou seja do que for. Não se reabilita uma criança (não se reabilita seja quem for) castigando-a. Não se pune a crueldade com mais crueldade. Não se compensam os efeitos desastrosos da falta de amor, privando seja quem for de mais amor.

Feitas estas duas ressalvas, não posso deixar de me afirmar chocado com aquilo que parece ser uma sentença ligeira, no caso das crianças que provocaram a morte de Gisberta, no Porto. Não porque as crianças não tenham sido pesadamente castigadas, mas antes porque me parece que toda a gente se safou. A sentença, ou aquilo que dela se vai conhecendo, parece com efeito demasiado desculpabilizante. Não das crianças, mas de tudo e de todos que permitem que este tipo de coisas aconteça. E mesmo que a sentença faça todo o sentido à luz do quadro legal aplicável, o tribunal sempre poderia ter aproveitado a oportunidade da sentença para traçar um retrato das condições de miséria e de desresponsabilização institucional que levaram a que um grupo de crianças, por razões que o próprio tribunal parece considerar inexplicáveis, não tenha encontrado melhor divertimento do que torturar um ser humano até lhe provocar a morte.
Há uma doença, e essa sim é uma doença grave. Fingir que não a vemos, como parece ter feito este tribunal, só pode significar condenar mais um bocadinho o doente à morte.