July 27th, 2006

rosas

(no subject)

MARGOT

Margot segurava com força a mão do filho. Estavam parados na entrada de uma trattoria, olhando para o cardápio afixado na parede e tentando perceber qual era a oferta para poderem escolher. Margot disse para o filho: «Eu vou beber um white tea, tenho saudades de beber um chá com leite.» O rapaz escolheu um sumo e um bolo, apesar de não confiar muito no aspecto brilhante dos cremes coloridos que cobriam os pastéis. A simpática senhora do restaurante apontou-lhes uma mesa, indicando que levaria o serviço ao lugar.
Era a primeira vez em muitas horas que Margot e o filho comiam. Na verdade, tinham almoçado durante o longo voo, mas desde que aterraram em Londres não tinham ainda comido nada. Margot atravessou toda a cidade, de metro e depois a pé, sempre segurando numa mão a mala pesada e na outra, com força, a mão do rapaz. Quando saíram da estação do metro Margot teve receio de perguntar pela rua onde ficava o modesto hotel familiar onde tinham reserva, e por isso demoraram algum tempo, atravessando ruas e arrepiando caminho várias vezes, até encontrarem a morada certa. Depois de pousarem a mala no quarto, saíram de novo para telefonar e para tentarem comer alguma coisa.
Margot sentia muita fraqueza, mas a sua grande preocupação era o filho. Por isso, e apesar de os restaurantes e os cafés lhes parecerem estranhos, hesitaram pouco e entraram num dos primeiros que encontraram, na própria rua onde estavam alojados: Trattoria Via Carlota. Mas depois de estarem lá dentro, de pé, especados, estudando o cardápio, Margot hesitou se aquele seria o tipo de estabelecimento que realmente pretendiam. O rapaz nunca tinha apetite, sentia-se quase sempre agoniado, e era sempre muito difícil decidir o que queria comer. Para mais, quando as coisas tinham um ar tão diferente daquilo a que estavam habituados, e os nomes na lista eram totalmente estranhos. Foi por isso que Margot escolheu o white tea, porque se lembrou da sua infância e de quando ela ia com a mãe tomar chá a casa das amigas dela. Uma dessas amigas orgulhava-se de ser viajada, de conhecer o mundo, e pedia sempre chá com leite, que era a bebida preferida dos ingleses, e a que estes chamavam white tea.
Depois de se sentarem numa pequena mesa de madeira, enquanto aguardavam que a senhora do restaurante os servisse, o rapaz disse: «Vê, mãezinha, Via Carlota quer dizer Charlotte Street, o nome da rua». Margot, pela primeira vez nesse dia, sorriu.