July 25th, 2006

rosas

à procura de sana

Estou a ler À Procura de Sana, de Richard Zimler, de forma um pouco devoradora, o que não é muito habitual. Normalmente leio devagar, muito devagar. Mas Zimler tem um estilo muito coloquial e fluente, as personagens são fascinantes, e há sempre um mistério, ou pelo menos uma sugestão de mistério, que nos leva a ler mais umas páginas para tentar saber se aquilo que nos contam é efectivamente verdade. Além disso o autor usa neste livro um recurso que é ser ele próprio personagem, e narrador, da história, o que dá ao livro um tom de credibilidade (um passo mais do que a simples verosimilhança), quase como se o que lemos fosse uma reportagem; e como em qualquer reportagem, se o primeiro parágrafo, se a premissa da história, nos agrada, nós vamos logo por aí fora. O que é notável tratando-se de um livro que vive sobretudo de conversas, e sobretudo de uma conversa, longa, interrompida, reatada, com proximidade física ou decorrendo a longa distância.
Tudo isto nos diz muito acerca dos evidentes recursos narrativos de Richard Zimler. Não sei se estamos perante uma obra literária, daquelas com o peso do cânone e da tradição. Não tenho bem a certeza, pelo menos a avaliar apenas por este livro, se o que Richard Zimler escreve é literatura. Mas também acho que isso não é nada importante. Seja como for, parece-me claro que há um certo estilo de influência jornalística, e que o livro se situa ali a meio caminho entre a literatura dita séria e a literatura mais popular.
Mas se pode haver alguma facilidade literária, já quanto ao tema as coisas não poderiam ser mais sérias. No cerne desta história está a realidade que se vive no médio oriente, ou seja o conflito entre Israel e a Palestina, e trata de duas amigas de infância, uma árabe e outra judia, e de como as suas vidas são totalmente dominadas e condicionadas por esse conflito. Apesar de eu ainda ir a pouco mais de meio do livro, e de, como já referi, haver sempre no ar a promessa de surpresas, de que aquilo que estamos a ler não é bem a verdade dos factos, parece-me que a grande lição do livro é a de que não há lugar para nada de positivo quando se vive sob o peso do ódio, da violência e do terror. Nada pode crescer, nada pode ser construído. O autor não toma qualquer partido, mas sendo Zimler judeu, é inegável que o seu dedo pareça apontado com maior veemência a Israel. O que eu quero dizer é que é sempre mais fácil criticarmos os outros. Quando olhamos para nós, para o nossos, com um olhar igualmente acusador, essa acusação resulta sempre, e naturalmente, mais violenta. Veja-se, por exemplo, o capítulo dedicado a Jamal, e ao seu martírio, onde a voz do autor resulta mais implacável e dura.

Há muito tempo que sentia curiosidade para ler os livros de Richard Zimler. Devo confessar que a minha curiosidade era muito extra literária, tinha mais a ver com aquilo que eu conhecia da vida privada do autor (da vida privada do domínio público, note-se, daquela que a gente percebe apenas por olhar com atenção, nada de mexericos nem de inside information!), e das entrevistas dele que eu tenho lido.
rosas

à procura de sentido

Quando comecei a escrever a entrada anterior, a minha ideia era usar o livro de Richard Zimler como pretexto para falar do agudizar actual do conflito, ou seja da guerra aberta que Israel está a levar a efeito no sul do Líbano. Sabemos todos que não há explicações fáceis nem razoáveis neste conflito que opõe Israel aos palestinianos e, de um modo geral, ao mundo árabe. Não é possível justificar o que se faz hoje com o que aconteceu ontem. Não é possível dividir o mundo do médio oriente entre bons de um lado e maus do outro, entre agressores e agredidos. As causas do inferno são muitas, variadas e complexas. Confesso que de um ponto de vista puramente emocional, simpatizo com Israel e acho que Israel tem o direito de se defender, atacando, de quem representa uma ameaça constante à sua segurança. Mas tenho consciência que esta posição é tão facilitista (e tão facciosa) como qualquer outra.
O que me irrita um bocado é o discurso anti-sionista dos europeus, em especial dos chamados intelectuais de esquerda. Não percebo em nome de quê é que eles se encarniçam tanto. Eu sei que é sempre consolador acreditar em causas, mesmo que seja apenas acreditar que se acredita em causas. Mas parece-me uma certa falta de honestidade nesta tentativa de aquietar as consciências.
Curiosamente, no livro de Zimler defende-se que a raiva histérica por parte dos europeus em relação a Israel tem a ver com o facto de os judeus terem, em nome da defesa do seu estado, abandonado o papel de vítimas passivas que se lhes tinha colado em função da história e sobretudo do holocausto nazi. Privada das suas vítimas de estimação, a esquerda europeia foi obrigada a arranjar novas vítimas sobre quem derramar a sua boa consciência. Se calhar foi isso, não sei.