July 24th, 2006

rosas

(no subject)

ALMA

para o Fábio


Alma não consegue deixar de sentir remorsos, mas a verdade é que desde que a sua mãe morreu, há pouco mais de seis meses, adquiriu uma tranquilidade e uma paz de espírito que há muito não conhecia. Mesmo agora, olhando para os retratos que estavam numa caixa que encontrou na casa que era dos pais, parece descobrir um novo semblante no rosto da mãe. Aos poucos vai reencontrando um olhar que se lembra de ter visto nos olhos da mãe apenas quando era ainda criança. Nesta fotografia em que pega, agora, o olhar da mãe parece diferente do que era poucos dias atrás, quando mirou a fotografia pela primeira vez. Parece-lhe agora um olhar mais puro, sereno, sem qualquer centelha de fúria ou perturbação.
Alma conversa com a mãe. Faz-lhe confidências, conta-lhe as pequenas histórias do quotidiano, troca opiniões acerca das coisas do dia a dia, mas sobretudo vai acertando contas passadas. Não num tom recriminador, Alma está demasiado em paz para sentir azedume, mas um pouco como quem limpa uma casa que vai abandonar. Alma sente que finalmente a mãe é a sua mãe. Pode falar com ela, pode dizer-lhe das mágoas que carrega consigo, em silêncio, desde que era adolescente e a mãe foi internada pela primeira vez. Há da parte da mãe uma disponibilidade para a ouvir a que Alma demorou a habituar-se, por ser tão estranha.
Mas esta sensação de alivio, de que finalmente lhe foi removido da frente o muro pesado e intransponível que era a mãe, e o seu olhar sempre incompreensível, também tem o seu peso. Alma tem a certeza aguda de que nunca fez nada que pudesse ter contribuído para o estado da mãe, e nessa medida não lhe pesa o mínimo remorso, não a tinge o mais leve traço de culpa. Mas mesmo assim causa-lhe desconforto esta paz recém adquirida. O gosto da liberdade, que ela experimenta pela primeira vez desde que se lembra, ou pelo menos desde que era criança, não deixa de ter um travo amargo. Leve, quase imperceptível, mas presente.
Em cada fotografia que pega e fixa com atenção, Alma sabe que o mesmo movimento que recupera a mãe que nunca teve, desfere um golpe implacável na pessoa estranha que se vai descolorindo na sépia do papel.