?

Log in

No account? Create an account

costello
rosas
innersmile
Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee, não é um livro fácil nem um livro divertido, no sentido de entretenimento da palavra. Trata de uma mulher escritora e a entrar na velhice, que entretém o envelhecimento e rentabiliza o sucesso dos seus livros frequentando o circuito de conferências em universidades e outros areópagos académicos e literários. O livro estrutura-se em capítulos dominados cada um por uma conferência, servindo dois propósitos: por um lado permite ao autor abordar uma série de temas contemporâneos de índole artística e filosófica (a crise do realismo literário, a emergência dos direitos dos animais, a natureza da literatura africana, a relação entre a arte e o mal, etc.); por outro, e a partir dessas abordagens, estabelecer em simultâneo um retrato ou um perfil da sua personagem e um quadro do estádio ético e moral do mundo dos nossos dias.
O livro, de que me faltam ler pouco mais de cinquenta páginas, tem um tom amargo, desiludido, mas a sua leitura é compulsiva e fascinante. É admirável como com um conjunto relativamente escasso de descrições e peripécias, e mais através de subtis sinais, o autor consegue compor um retrato intenso e profundo da personagem principal, dando-lhe verdadeiramente uma alma. Além disso Coetzee partilha uma qualidade muito comum nos escritores anglo-saxónicos que é a de serem simultaneamente muito simples e directos ao nível da linguagem utilizada (a sintaxe convencional, a narrativa fluente e linear, aquilo a que se costuma chamar uma prosa 'no-nonsense'), mas complexos e ambiciosos nos temas e questões abordados.
J. M. Coetzee é sul-africano, prémio Nobel da literatura, e maior parte dos seus livros estão traduzidos e editados em português (se bem que eu li o livro numa edição de bolso inglesa, que custou metade do preço da edição nacional – ambas à venda na mesma livraria, a meia dúzia de estantes uma da outra).
Tags: