June 27th, 2006

rosas

6fu

Eu primeiro até tinha decidido nem fazer uma entrada sobre ‘All Alone’, o episódio de ontem de Six Feet Under. Apetece-me falar da série quando ela me perturba ou surpreende, quando de certa forma transcende aquilo que eu espero e conto ter quando assisto a uma obra de ficção televisiva. E a verdade é que o episódio de ontem apenas me comoveu, e a comoção não me deixou ver com clareza todo o desenrolar da teia narrativa. Mas hoje tive uma conversa com uma pessoa que também é fã da série e que me pediu para lhe contar o episódio de ontem, e pensei que afinal se calhar vale a pena registar aqui duas notas.
A primeira é para realçar que um dos pontos fortes de SFU é o modo como se expõem sempre as fragilidades das personagens. Já cometi o erro de pensar que a série abordava personagens disfuncionais, e que o fazia até com algum cinismo, porque as tratava com os modos cerebrais e frios de um analista de laboratório. Aos poucos fui concluindo que o que SFU faz, ao invés, é tentar lançar um olhar desprovido de compaixão às fragilidades das personagens. Neste aspecto o episódio de ontem foi uma verdadeira tese de doutoramento.
O que nos leva para a segunda nota. De entre as várias cenas do episódio de ontem que me deixaram com um nó na garganta, a minha eleita é aquela em que Ruth se junta a David, na cave da casa funerária, a lavar o corpo de Nate. Há um momento, entre a chegada de Ruth à sala e começarem os dois a discutir as opções do funeral, em que os dois, em silêncio, cada um com a sua toalha, vão lavando o corpo. Uma das coisas mais difíceis para o cinema (ou qualquer outra arte) representar é a morte, a forma como lidamos com a morte. Porque todos a vivemos de forma demasiado brutal e íntima para encontrar algum sentido nessas representações, que ficam sempre aquém (ou mesmo além) daquilo que verdadeiramente sentimos.
De certa forma, é esse o grande trunfo de SFU – acumular as personagens de tantos sinais, de tantos indícios, de tantos traços psicológicos (de comportamento, de personalidade) que é impossível estabelecer-lhes um perfil. É nesse momento que as personagens de SFU se começam a parecer absurdamente connosco.