June 22nd, 2006

rosas

sábado à tarde

A entrada que pus aqui há dias sobre o iminente encerramento do cinema Avenida (a propósito, a última vez que lá fui era o único espectador na sala) suscitou, entre outros, dois comentários particularmente interessantes sobre o ‘velho’ Cinema Avenida: da Amélia Pais, que se refere especificamente ao Avenida dos anos 60, e da Isabella, deduzindo eu que esteja a falar do antigo edifício do cinema, uma vez que o novo, tanto quanto me lembro, nunca passou filmes pornográficos.
Não conheço a história do Avenida, mas sei que teve, como refere a Amélia Pais, um papel importante na vida cultural e académica da cidade. Quando o conheci, em finais da década de 70, era já uma sala a caminhar para a decrepitude, em que o balcão tremia quando passava um eléctrico lá fora na avenida. Note-se que eu era menino da plateia, mas uma das primeiras namoradas que tive queria obrigar-me a ir para o balcão, onde as minhas pernas nem cabiam. Se calhar foi disso… Havia umas certas peneiras do pessoal que ia para o balcão, os casalinhos, os tipos das pólos Lacoste, esse tipo de pessoas!
Lembro-me que nessa altura realmente o Avenida passava filmes pornográficos na sessão das 19. Eu ainda não tinha idade legal e sempre fui demasiado cobarde para tentar entrar à sorrelfa, mas recordo-me perfeitamente dos cartazes à porta anunciando as estrelas mais populares. Mais tarde, fruto da evolução dos tempos e dos costumes (e da invenção do vídeo, naturalmente…), esse horário passou a ser dos filmes clássicos (foi aí que eu vi, em dias consecutivos, o Novecento, do Bertolucci) e já mais recentemente dos filmes de qualidade e do cinema alternativo.
No ‘velho’ Avenida havia um bar do lado direito, com acesso directo da rua ou pelo foyer, e que na minha memória predomina como um sítio escuro, com um balcão em madeira. Em frente das portas de entrada ficavam as bilheteiras, uma de cada lado da porta principal de acesso à sala, mas só me lembro de estar a funcionar a do lado esquerdo. Ou será que do lado direito era bengaleiro? Não me lembro. No átrio havia vitrinas com cartazes dos filmes, que também se alinhavam no friso junto ao tecto. Lá dentro as cadeiras eram em veludo vermelho, muito surrado, o chão de madeira. Tinha cortinas de cena e, já não tenho a certeza se era no Avenida se no Tivoli, uns painéis publicitários presos às cortinas e que serviam para, enquanto esperávamos pelo início da sessão, eu e os meus amigos jogarmos um jogo que era descobrir determinadas palavras. Credo, que coisa infantil para os galfarros que já éramos!
Para o fim, a sala do Avenida era uma coisa inenarrável, com ratos a passear junto ao palco, os assentos das cadeiras transformados em alçapões armadilhados, a aventura das obras que deixou um buraco atrás do ecrã por onde uma vez entrou uma derrocada, levando demasiado longe o realismo dos efeitos especiais. Mas mesmo assim, quase transformado em drive-in, o Avenida nunca parou de passar filmes!
Só me lembro de assistir a uma peça de teatro no velho Avenida, por acaso com a Laura Alves, e, na sala nova do cine-teatro, também assistir a uma, da Escola da Noite, O Triunfo do Amor, que teve de ser interrompida porque uma das actrizes deslocou um braço num movimento mais repentino.
Na actual sala do cine-teatro há um pequeníssimo balcão, duas ou três filas apenas, onde me sentei em algumas ocasiões de sessão esgotada. Nesse balcão pontifica o varandim de ferro que foi recuperado do balcão do velho Avenida. Se os saudosistas quiserem ir lá vê-lo, o melhor é apressarem-se…