June 21st, 2006

rosas

summer fling

Eu sei que isto parece a TVGuia, mas a verdade é que o canal 2 da RTP tem trazido programas interessantes. Ontem o entrevistado no programa Por Outro Lado foi o escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho. Não sabia que ia passar a entrevista mas graças a Safo (ver adiante) fiz um zapping quando o programa estava a começar. Achei a entrevista fraquinha, e a responsabilidade divide-se: o entrevistado estava nitidamente pouco à vontade no meio, apesar de ser simpático e colaborante, mas vê-se claramente que prefere escrever a falar. A entrevistadora pareceu-me pouco preparada e com um conhecimento muito padronizado, muito metido em categorias, da realidade moçambicana, mesmo no que diz respeito ao seu passado colonial. Eu sei que não é um tema que suscite um interesse muito generalizado (infelizmente, infelizmente), mas quando se entrevista um historiador especialista precisamente nas duas guerras que estão na génese da identidade moçambicana, a colonial e a civil, tem de haver um mínimo de preparação. Como perdi a parte inicial da entrevista, não sei do que aí se falou, mas achei que se falou muito pouco dos livros de JPBC, que era, de certa forma, o ponto mais interessante. Não conheço a obra de historiador de JPBC, de modo que é através da literatura que conheço o sentido do seu olhar, a sua perspectiva, sobre o país Moçambique. Muito provavelmente, teria sido mais interessante, e se calhar até mais fácil, ficar a conhecer o pensamento do autor através da sua obra literária do que através do seu trabalho de historiador.
Seja como for, foi uma belíssima oportunidade de tomar contacto com um dos meus autores preferidos, e de ouvir algumas histórias fantásticas. Como a que ele contou de ter descoberto no âmbito da investigação histórica que uma determinada pessoa, muito conceituada pelos seus colegas por actividades em prol da luta de libertação de Moçambique, tinha sido afinal informador da polícia política colonial, e dos problemas éticos que essa descoberta lhe suscitou.

A seguir ao Por Outro Lado, o canal 2 transmitiu o segundo episódio de The L Word, uma série quentíssima, que é assim uma mistura de Sex and the City e de Queer as Folk. Realmente um tipo como eu, já de uma certa idade, e com memória de como as coisas se passavam aqui há uns anos, fica um bocado pasmado a olhar para a ousadia com que a televisão, redutora como é a um certo mínimo denominador comum do gosto e da moral, olha para um grupo de lésbicas americanas, tentando perceber, e é aqui que a série é notável, como é que as relações amorosas e de amizade se estruturam e evoluem num contexto predominantemente homossexual. É essa, na minha opinião, a mais valia desta série. Entre os restantes, e abundantes, motivos de interesse, saliento as presenças da Jennifer Beals ('what a feeeeeeling') e da Pam Grier. A série passa todas as noites, por volta das 00:15 e é 'unmissable'.


Passamos agora à montra de livros, para registar duas leituras recentes: mais um volume do Júlio Dinis, Uma Família Inglesa, que eu contínuo a ler para recuperar a adolescência desperdiçada. E a biografia de António Variações, Entre Braga e Nova Iorque, escrita por Manuela Gonzaga. Saudando embora a oportunidade desta publicação, e reconhecendo o trabalho de pesquisa e recolha de fontes da autora, acho que o livro peca por falha de perspectiva. Talvez tenha a ver com o facto de Variações ser uma pessoa muito secreta e misteriosa, talvez ainda com o facto de, como decorre do livro, as pessoas que o conheciam e que prestam depoimentos apenas conhecerem um determinado aspecto da sua personalidade e da sua vida; talvez isso tudo tenha influenciado, mas o certo que é que Variações não surge mais iluminado, mais nítido, neste retrato que Manuela Gonzaga pretendeu fazer, e que foi um claro 'labour of love'. Não pretendo, como é óbvio, uma biografia que 'explique' o Variações, que seja a sua biografia oficial e institucional, ou sequer um Variações Behind Close Doors. Não é disso que se trata. Apenas pretendia que este retrato tivesse mais perspectiva, se se quiser até mais subjectivismo, que fosse Variações como a autora o vê, e, não, como de certo modo acontece, o cruzamento dos vários Variações que resultam de tantas perspectivas. Note-se que eu percebo que isso se calhar foi intencional, e que esse cruzamento de olhares eventualmente até enriqueceria o retrato. Mas isso só acontece quanto mais sólido for o olhar do autor da biografia, e, na minha humilíssima opinião, não é isso que acontece neste livro. Que, volto a repetir, é um óbvio trabalho de amor, e só por isso já suscitaria todo o carinho e todo o respeito.


Hoje é 21 de Junho, dia de solstício. De Verão ou de Inverno, conforme o hemisfério de onde olhamos o sol quando ele se senta a descansar no ponto mais afastado do equador. Neste dia, o poema que sempre me sobe aos olhos é a Arte de Navegar, do Eugénio de Andrade:

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.