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Há coincidências incríveis. Hoje de manhã, depois de ter estado estendido no sofá a ler e a ouvir o Alfred Brendel a tocar Schumann, saí para ir beber um café e, não sei porque impulso ou associação de ideias, decidi levar para ouvir no carro um cd do Paul Simon, o Graceland.
Eu gosto muito do Paul Simon, como alguns dos leitores mais antigos do innersmile sabem. Aprendi inglês, aí por volta dos 10-12 anos de idade a ouvir um disco dos Simon & Garfunkel. O tipo de sensibilidade artística do Paul Simon toca-me muito, e já escrevi muitos contos e poemas tentando capturar, sempre em vão, o tipo de sentimentos e emoções que as suas canções e os seus textos me provocam.
Voltando à manhã de hoje, passei pelo café onde habitualmente tomo a bica mas, como estava fechado, fui ao Centro Comercial Girassolum. Antes de tomar café, subi ao 2º piso onde fica a livraria e as lojas de discos onde eu habitualmente me abastecia e onde já não ia há algum tempo, pelo menos desde que abriu a Fnac. Pois bem, na montra de uma das lojas de discos um cd novo do Paul Simon. Fui logo espreitar, claro, e o cd tem colaboração do Brian Eno como criador das paisagens sonoras. Que dupla. Naturalmente trouxe o disco e tenho estado a ouvi-lo praticamente desde essa altura.
O cd intitula-se muito justamente Surprise, porque essa é a primeira sensação que temos quando o começamos a ouvir: surpresa! Surpresa pela associação improvável, ou nem tanto, entre Simon e Eno. Surpresa por, à primeira audição, o disco nos soar estranho, ou melhor, com uma familiaridade estranha, como quando nos cruzamos com alguém que conhecemos bem no sítio mais improvável. Para quem conhece razoavelmente o trabalho de Simon e o de Eno, parece realmente uma associação estranha entre o urbanismo racional e clean do Paul Simon e o som cósmico e ambiental do Brian Eno. Mas a mistura, pelo menos para mim, resulta muito bem.
Trata-se, a meu ver, de um álbum muito político, em que Simon usa a sua sofisticação e subtileza de letrista para criar um retrato amargo do estado actual do mundo e da sociedade. É um disco triste, não no sentido lúgubre do termo, mas porque o mundo retratado nestas canções é absurdo e provoca muito sofrimento nos seus habitantes. E é aqui que as paisagens sonoras do Brian Eno entram, porque de certo modo é como se criassem uma referência para qualquer coisa de essencial, uma harmonia cosmológica, que, nas canções como no mundo, podemos sentir mas nunca agarrar, e que funcionam como o contraponto fundamental para o desencanto das canções. O resultado é como se Simon dissesse: este mundo é trágico e absurdo, mas corre ainda em nós aquilo que lhe dá beleza e harmonia.
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