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o regresso da praia fluvial
rosas
innersmile
Fui hoje pela primeira vez este ano, à praia fluvial. Apesar do calor imenso, ainda pouca gente, a época balnear ainda não se calendarizou na rotina do pessoal. Mas, claro, sempre aquele mix-sortido-fino de rádios aos berros, cães rafeiros, bébes a chorar e o cheirinho (que rico!) das sardinhas a assar nos grelhadores. Para além das familias numerosas, dos casalinhos de namorados em que eles têm um atractivo bronzeado à camionista, hoje apareceu um grupo grande de gajos e gajas, assim com um ar, como direi?, tipo aposentados da Remar, eles magros, com borrões indecifávreis tatuados nos braços escanzelados, elas, de cigarro no canto da boca, com fio dentar a salientar a celulite. Mal pousaram as roupas, foram todos para água em grande algazarra. Às tantas, ouve-se um grito lá de baixo:
-Já te mandava uma queca aqui na água!
Como sou um tipo discreto, achei que estava na hora de me retirar.
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lisboetas
rosas
innersmile
Já vi o filme na sexta-feira, mas tenho andado às voltas hesitando no modo de lhe pegar, fazendo-lhe, por um lado, justiça, e, por outro, não lhe estragando a sensibilidade e a subtileza.
Começo então por alinhar no unanimismo: Lisboetas, o documentário de Sérgio Tréfaut, devia ser um filme de visionamento obrigatório: em todos os níveis de ensino, nos lares, nas associações, nos clubes, enfim… Porque depois de ver o filme nunca mais poderemos continuar a olhar para os imigrantes, todos eles, seja qual for a sua proveniência, com aquela espécie de indiferença com que normalmente olhamos aqueles que estão fora, normalmente em baixo, da nossa esfera social. E não interessa dizer se somos mais ou menos assim, racistas, separatistas, xenófobos. Não interessa. Para nós, para todos ou para a maioria de nós, os ucranianos, os cabo-verdianos, os chineses, até os brasileiros, se bem que em relação a estes com algumas nuances, habitam uma espécie de realidade paralela, um lumpen clandestino, com o qual apenas contactamos ‘at the point of service’, todo ele dominado pelo signo da miséria: a da pobreza, a do esclavagismo, a da exclusão, a do crime. E não tenhamos ilusões – quem impõe esse signo somos nós, a classe média, os funcionários públicos, os intelectuais, os autores de blogs. Como diz alguém no filme, os portugueses não gostam de nós, mas gostam do nosso dinheiro; leia-se, no lugar do dinheiro, o valor que ele representa, nomeadamente a força de trabalho, a mão de obra.
Por isto tudo, o filme de Tréfaut é um murro no estômago. Não porque denuncie. Não é, apesar de ser um filme político, um filme panfletário. Mas apenas por que mostra. E até mostra com discrição, com subtileza, nada daquele género in-your-face, a la Michael Moore. O problema, é que mostra pessoas rigorosamente iguais a nós, com almas rigorosamente iguais às nossas, com o mesmo medo e o mesmo sentido de humor, com a mesma capacidade de se comoverem e de apreciarem criticamente o mundo, mas que, porque caíram do lado errado do dado ou da história, estão condenadas a viver sob o tal signo da miséria.
É ainda um filme obrigatório porque, talvez de um modo mais eficaz do que nunca, nos mostra o que deve ter sofrido a nossa emigração no tempo em que ia a salto para o bidonville limpar a sarjeta. Sim, não escapa a (falta de) subtileza de nós, como nação, no espaço de 30 ou 40 anos, termos passado a sujeitar os outros àquilo a que os outros nos sujeitavam.
Finalmente, um filme obrigatório porque, pelo olhos dos outros, vemo-nos a nós com um recorte e uma nitidez impressionantes. Onde nós pomos, mansamente, paninhos quentes, para os outros é crueza a preto e branco. Como a russa que fala ao telefone e diz que o país é bom, a praia é óptima, o sol fantástico, mas a educação é fraca. Que as crianças que hão-de vir da Rússia vêm muito à frente dos seus colegas portugueses. Alguém se atreve a atirar a primeira pedra?

Como já referi, Sérgio Tréfaut faz um filme político, naquele sentido em que lhe interessa falar da polis e dos seus assuntos, mas faz, de um ponto de vista exclusivamente cinematográfico, um filme inteligente e de uma simplicidade desarmante e, obviamente, muito eficaz. A forma como utiliza o plano, o modo como a câmara nunca se aproxima demasiado, antes guardando uma respeitável e apudorada distância. A forma como, sabendo que o rosto é o espelho da alma, o olhar se fixa, tranquila, serenamente, nos rostos, à espera que eles revelem todas as explicações, pelo menos aquelas a que temos direito. Eu sei que isto não é dizer nada, mas o filme de Tréfaut está nos antípodas, em matéria de bom gosto e de inteligência, da mórbida e cruel curiosidade televisiva, que devassa, sem tréguas, a intimidade do sujeito para lhe mostrar as tripas e as chagas. Aqui, literalmente, esconde-se a ferida, e opta-se por mostrar o que dela vem ao rosto e aos olhos dos protagonistas.

Não costumo fazer isso, mas abro uma excepção e faço um apelo em forma de sugestão: vão ver Lisboetas. Poupem o dinheiro do Código da Vinci e da Missão Impossível, e vão ver os vossos irmãos no cinema. Pode ser que, como me aconteceu a mim, também se reconheçam a vós próprios lá no ecrã.
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