May 25th, 2006

rosas

(no subject)

A melhor coisa aqui do meu local de trabalho é ficar inserido numa extensa zona verde, com jardins e mata. Não há prazeres que se comparem a atravessar o jardim à luz limpa das manhãs, reparar na forma como ela atravessa a copa das árvores, conferir a magnólia habitual, ouvir o canto dos pássaros. Mesmo que o estacionamento desordenado ameace invasão, mesmo que os caminhos e as alamedas estejam sujas e mal mantidas. Apesar de fazer este brevíssimo passeio todos os dias, é raro não me surpreender com o feerismo vibrante da natureza, sobretudo ao início da manhã ou ao fim da tarde, quando volto para o carro.
Hoje, já quase a chegar aqui ao escritório, passei por um daqueles arbustos baixos e frondosos que se usam para delimitar os caminhos dos canteiros (a minha ignorância acerca dos nomes das plantas é confrangedora). O arbusto está no seu máximo esplendor, todo florido, a exalar um odor intenso e agradável. À minha frente, a subir a pequena rampa de acesso ao edifício, um casal já com alguma idade, de origem humilde, para usar um eufemismo mais ou menos elegante. À passagem pelo arbusto, a mulher comenta para o homem: "que cheiro tão bom, tão perfumado". Soou-me tão bem a maneira como ela disse a expressão 'perfumado'. E sensibilizou-me a ideia de que há pessoas ainda reparam nestas inúteis e insignificantes extravagâncias do quotidiano. Como essa de passar ao lado de um arbusto perfumado, e dar por isso.

Mas há outra coisa que se repete todos os dias. Chego à secção, dou os bons dias, venho para o gabinete, ligo o computador para ver os mails, confiro a agenda, e cai sobre mim um enorme desânimo, perante a desolada perspectiva das oito ou nove horas seguintes. Naquele momento, as horas que se estendem à minha frente, parecem-me absolutamente intransponíveis, insuportáveis, uma travessia impossível. Passa-me pela cabeça a dúvida: como é que eu faço para serem já horas de sair daqui e eu poder voltar à vida, às ruas, à casa, aos livros e aos cds, aos filmes e aos encontros, aos passeios a pé depois do jantar, às esplanadas, ao rádio do carro a tocar ópera… Depois o telefone toca, alguém entra pelo gabinete com uma questão, há novos dados a caírem no computador que precisam de ser trabalhados, há relatórios ou ofícios para minutar, as reuniões. O dia estremece um bocadinho, dá um solavanco e lá entra nos eixos.