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as duas sombras do rio
rosas
innersmile
Já aqui tenho para ler o último livro de um dos meus escritores favoritos, o moçambicano João Paulo Borges Coelho, de quem já aqui tenho falado muitas vezes. O JPBC é o autor de As Visitas do Dr. Valdez, que é dos meus livros da vida. Antes de atacar a Crónica da Rua 513.2, assim se chama o livro mais recente, decidi ler o seu primeiro livro publicado, As Duas Sombras do Rio, que já aqui tinha há algum tempo à espera de vez.
O livro é sobre a guerra civil que devastou Moçambique durante os anos 80, e centra-se nas vicissitudes de uma zona da província de Tete, nas margens do imponente Zambeze, ali mesmo naquele ponto em que o país faz fronteira com a Zâmbia e com o Zimbabué.
É um livro amargo, doloroso, muito sombrio como o título indica, que traduz bem todo o sofrimento, mas sobretudo todo o desgoverno e toda a desesperança que a guerra sempre traz às populações. Mas nem por a escrita de JPBC perde a sua característica luminosa, alegre (é isso, mais do que uma escrita bem-humorada, é uma escrita viva, alegre), que faz as personagens e os acontecimentos saltarem de vida à nossa frente.
Talvez que de um ponto de vista narrativo não seja um livro tão coerente como os seguintes. E além disso arrisca uma coisa que é sempre muito difícil: encontrar na nossa língua uma semântica que seja fiel ao universo mágico e religioso, cheio de animismos e intuições, que constitui o sedimento identitário cultural e filosófico das populações africanas. Mas nada disso belisca o prazer e a riqueza da literatura de JPBC, e sobretudo, como já referi, a sua espantosa capacidade de dar vida às palavras e às personagens.
Acho que essa qualidade da escrita de JPBC está muito patente num trecho da narrativa que não resisto a transcrever para aqui, apesar de ser um pouco extenso. Nem vale a pena contextualizar esta cena, porque é tão eloquente, caracteriza tão bem a situação, dá em duas pinceladas, o perfil das personagens (mesmo que uma delas esteja morta e da outra nem o nome saibamos, apenas a profissão e a condição), que de facto se pode ler até como um conto, tem essa riqueza da síntese e da concisão.
Não é de mais repetir: João Paulo Borges Coelho é um escritor obrigatório! Para quem gosta de ler, para quem gosta da língua portuguesa e da sua literatura, e até para quem gosta de saber mais acerca de nós próprios conhecendo melhor os outros.

No dia seguinte, o lojista chegou como de costume. Vinha preocupado com um ligeiro atraso e por isso achou estranho que a porta estivesse fechada e as gelosias das janelas cerradas. Hesitou, bateu à porta e acabou por ir sentar-se junto dos outros criados, debaixo do alpendre, aguardando. Era uma situação inédita, aquela, e eles, habituados à rotina e à obediência, não sabiam o que fazer. Comentavam uns com os outros, falavam de coisas pequenas, esperavam. Mas a responsabilidade roía o lojista que não se sentia bem desconversando com o tempo, esperando que as coisas se resolvessem por si próprias. Por isso juntou coragem e deu a volta à casa, espreitando à procura de um sinal. Subiu os três degraus da varanda, do outro lado, batendo as palmas bem alto para pedir licença. Foi então que deparou com a patroa ao fundo da varanda, quieta, olhando o rio.
- Bom dia, patroa. Estamos já lá fora à espera de entrar. Há também alguns clientes.
Teve como resposta o silêncio. Mama Mère desinteressa-se dele, envolvida agora em assunto mais interior e fundamental. Passou a noite naquela mesmíssima posição, a mão esquerda pousada no colo e a direita no cabo do punhal, erecta, olhando o rio com os seus grandes olhos abertos. O xaile descaiu-lhe para a cintura já há muito tempo, o que de restou pouco importa: o cacimbo não molesta os mortos da mesma maneira que molesta os vivos. O sol matinal espalha-se pelo soalho da varanda e daqui a pouco chegará aos pés da congolesa e começará a trepar-lhe pelas pernas, iluminando-a.
O lojista esperou ainda um pouco, respeitoso. Mas intrigado com aquele alheamento, acabou por aproximar-se. Pigarreou primeiro, falou depois, tentando convencê-la a reagir, sem saber que Mama Mère estava já muito longe dali. Deu-se por fim conta de que o mundo desabava (quem depende daquela maneira, como o lojista e os criados, deposita sempre no protector o segredo da ordem das coisas). Deu vários passos na varanda sem se decidir por uma direcção, falou sozinho durante um bocado e acabou por fugir dali, gritando alto. De volta ao alpendre, levou ainda um tempo a fazer-se entender pelos restantes. Desataram então a falar muito alto uns com os outros, lamentando e inquirindo, descoordenados. Uns saíam do confuso círculo e iam espreitar à varanda. Voltavam depois gesticulando e bradando coisas incompreensíveis, como se visão do vulto induzisse a loucura.