May 19th, 2006

rosas

gladly beyond any experience

Comecei ontem a rever, em dvd, o filme de Woody Allen, Hannah and Her Sisters. É um dos melhores filmes de Allen, e é curioso porque me lembro de o ter revisto muito poucas vezes, ao contrário do que acontece com outros filmes dele.
Para além do interesse e do prazer cinéfilos, esse filme está ligado a intensas recordações pessoais: foi um filme que eu vi num momento em que estava muitíssimo apaixonado, e o filme fez parte do processo de enamoramento. Entra (chamemos-lhe assim para proteger os inocentes) F. Vimos o filme juntos, adorámos, e descobrimos o poeta ee cummings, através do famoso poema 'somewhere i have never travelled, gladly beyond' que é directamente citado no filme, lê-o a belíssima Barbara Hershey - «god! she's beautiful» é, aliás, a primeira vinheta do filme, referindo-se a Lee, a personagem interpretada por Barbara.
O filme, o poema, o verso, foram incendiários. Na época (86? 87?) não havia internet, o mundo era um lugar vastíssimo, as fontes de informação eram tesouros fortemente resguardados, e foi uma trabalheira imensa descobrir quem era o ee cummings e outra ainda maior arranjar uma transcrição do poema. Um dia, F convida-me para almoçar, foi-me buscar à faculdade e fomos a Conímbriga. Almoçámos no restaurante do Museu, que tinha aberto há muito pouco tempo, e depois fomo-nos sentar no carro que tinha ficado estacionado do caminho, à sombra de uma árvore. Então F saca de um livro, abre-o na página certa, e começa a ler:

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


F tinha essa capacidade incrível, uma generosidade imensa, de conseguir revolver montes e desertos à procura das jóias mais improváveis. Para me oferecer. Um dia aparece-me em casa com uma cassete muito antiga, a capa toda descorada, que desencantou numa casa de discos qualquer daquelas um bocado ranhositas que havia antes (do incêndio, claro) no Chiado, em Lisboa. Era uma cassete da Shila, que tinha a versão que o Fausto musicou do poema do Reinaldo Ferreira 'Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia’'. Sim, esse que dá nome aqui ao journal e que está transcrito na userinfo.
O livro era uma antologia de poesia norte-americana do século XX que um colega de F lhe tinha emprestado. Esse colega tinha estado uns anos no Canadá a fazer um mestrado ou qualquer coisa do género, tinha casado com uma canadiana e o livro era dela. Tivemos o livro connosco até o colega de F começar a reclamar. Logo da vez seguinte que fui a Londres comprei uma antologia que trazia o poema de ee cummings, inaugurando, dessa forma, um pródigo hábito de gastar dinheiro nas livrarias londrinas.
Claro que entretanto muita água passou debaixo das pontes, e alguma até passou por cima, provocando inundações e estragos. Como esse, que demorou tanto tempo a recuperar, de F ter saído da minha vida de modo tão transtornante como tinha entrado. Claro que já há livros traduzidos e publicados com poemas do eec, já me apaixonei por outros poemas dele (e por outras pessoas, claro; e por algumas de forma tão ou mais transtornante), e, confesso, até já não o releio há uns tempos valentes. Mas para mim, ee cummings e, descobri-o ontem à noite, o filme de Allen, significam sobretudo isso: nobody, not even the rain, has such small hands