May 9th, 2006

rosas

variações

Ofereci à minha mãe, no Domingo, e a pedido, o recente disco A História de António Variações. O disco é interessante porque junta as canções do AV editadas em disco com maquetas domésticas dos mesmos temas, e porque tem ainda uns temas bónus com gravações inéditas. E o interesse reside, sobretudo, na possibilidade de comparar o produto final das canções com os protótipos construídos pelo AV e perceber como o tipo era um visionário da pop: por vezes só com palmas ou estalidos com os dedos a acompanhar a voz, as canções soam já amadurecidas, completas. Percebe-se que o tipo tinha uma ideia das canções que fazia, elas já existiam, já correspondiam a um conceito.
Achei isso particularmente evidente (e arrepiante, já agora) nos dois ou três bónus de canções que fazem parte do projecto dos Humanos. Quando o disco saiu dos Humanos saiu, eu escrevi aqui no innersmile que as canções mantinham intacto o ‘espírito’ musical do AV, mas sempre achei que o trabalho dos Humanos tinha sido feito sobre projectos de canções. Bom, ouvir agora o AV a cantar essas canções dá ideia de que afinal os Humanos fizeram ‘apenas’ versões de canções do AV. Atenção, não estou a desvalorizar as canções dos Humanos, e esse disco que é dos mais importantes dos últimos anos na música popular portuguesa, só estou a querer enfatizar como afinal as canções já soavam completas na voz do António Variações.
Nessa entrada sobre o disco dos Humanos já disse o que penso da importância da música do António Variações. Acho que ninguém que não tenha vivido esses dias do início da década de 80 pode avaliar com perfeição o que foi o impacto da AV: das suas canções, da sua maneira de cantar, da sua atitude, da pose. O AV pôs o sexo na canção pop numa altura em que o sexo não existia. E pôs a provocação, o desafio, o jogo da ambiguidade. Como digo, na sua atitude, mas sobretudo nas canções, quer nas letras quer na própria forma como as construía e interpretava.
Este disco traz, entre muitas outras, uma pequena jóia. Uma das canções mais ousadas do AV vinha no seu segundo álbum, o Dar & Receber, e era um pop-fado chamado Que Pena Seres Vigarista, que é, juntamente com A Canção de Engate e o "incontornabilíssimo" Estou Além, do melhor, do absolutamente genial, que o AV fez. Neste disco há uma pequeníssima amostra de uma maqueta dessa canção em que o AV canta apenas acompanhado pela guitarra (julgo que do Fontes Rocha, não tenho aqui o disco para confirmar).