?

Log in

No account? Create an account

mérida
rosas
innersmile







Retirado de um caderno, escrito nos dias 14 e 15 de Abril de 2006 (editado)

«De repente chegas a uma cidade que não te dizia nada, de que praticamente nunca tinhas ouvido falar. E essa cidade, no momento em que percorres pela primeira vez as suas avenidas e ruas a bordo de um autocarro de turismo, nesse mesmo momento, essa cidade começa a falar contigo. A dizer-te coisas, a falar-te de ti, tanto quanto dela própria.

Viajamos sempre, claro, para nos encontrarmos connosco, com algum lado de nós que está à nossa espera (que tem estado à nossa espera) nalgum insuspeito ponto do globo.

Foi tudo assim com Mérida, a capital do estado do Yucatán. Entraste na cidade e ela foi-te logo familiar. Mostrou-te, pôs-te em contacto, com um mundo que reconheceste como podendo ser teu. Sentiste-te de imediato à vontade, pisaste os passeios como se sempre os teus pés estivessem habituados àquela textura, àquela cor, aquele tamanho. É tão inacreditável tu estares a pisar pela primeira vez uma cidade e ela ser-te logo familiar, teres aquela sensação de que chegaste a casa, andares confiante e descontraído por cruzamentos e nunca te passar pela cabeça que podes estar perdido ou desorientado.

Mais? Mérida é uma cidade plana, baixa, espraiada, com árvores nos passeios, acácias vermelhas e cobrir de sombra praças rectangulares. Há qualquer coisa com as cidades coloniais. Trazem uma pele interior e profunda. Não sei, talvez o sentido das coisas que não fazem sentido.

Soy loco por ti América. Pela primeira vez desde que chegaste ao México a frase de Caetano faz sentido neste país que conheces agora.»

~*~

«Ontem à noite fui de táxi até à Plaza de la Independencia, também conhecida por Plaza Grande, que, apesar de ser sexta-feira santa e de, segundo nos dizem, a cidade estar deserta, apesar de serem onze e meia da noite, ainda tem muita gente espalhada pelos bancos da praça central e pelas esplanadas em volta, nas arcadas dos edifícios históricos. Já na Calle 60, sentei-me na esplanada no Café Péon Contreras, que fica no edifício do teatro com o mesmo nome (e onde se anuncia, para o final do mês, o Rigoletto, de Verdi). Bebi um daiquiri de fresa. Depois a pé até ao hotel, talvez uns dois quilómetros.

Passámos a manhã de hoje no centro de Mérida. Visita a edifícios históricos e compras na livraria Dante: poemas de Sor Juana Inês de la Cruz e um guia da cidade (sim, faz sentido comprar um guia de uma cidade quando nos preparamos para a despedida). Depois, para a esplanada do Péon Contreras, sob as acácias, a fazer horas, conversando e bebendo capuccinos.

Realmente não estava preparado para me apaixonar por Mérida. Ainda bem. Que não estava preparado, e que me apaixonei. Ao contrário do que se costuma dizer, não acho que tenha deixado um bocadinho de mim nos lugares pelos quais me apaixonei. Pelo contrário, esses sítios acrescentam-me, trago de lá um bocadinho de mim que ainda não tinha, que ainda me faltava. Apesar de eu não fazer a menor ideia até ter entrado na cidade, que ainda me faltava esse pedaço que lá fui encontrar.»
Tags:

the new world
rosas
innersmile
Suponho que The New World, de Terrence Malick, seja daqueles filmes aos quais se aplica o lugar-comum de que ou se amam ou se odeiam. Nesse caso, e para encurtar razões, eu faço parte do clube dos que amam. A questão então resume-se a tentar perceber as razões para esse amor!
A verdade é que, logo à partida, eu gosto de filmes contemplativos, de longos e demorados planos, em que a acção, para usar um termo fácil, escorre mais das próprias imagens, é uma coisa que se vai compondo ao longo do filme, digamos que não é tanto a acção que conduz o filme, mas que se deixa levar por ele.
Depois o filme tem uma pureza, uma candura. Que não deve ser confundido com ingenuidade, aliás o filme não é nada naive, tem até uma crueldade que o torna um objecto magoado e doloroso. Não há nada daquela história do bom selvagem, há no filme como que a consciência amarga que a chegada dos primeiros colonos ao solo da América do Norte iria determinar um novo mundo, enunciado no título do filme, e o filme de certo modo como que nos mostra os pedaços de que era feito o velho mundo, esse que morreu para dar lugar ao novo. Sem julgamentos, sem juízos críticos. A história é uma inevitabilidade e não é um bom princípio sermos demasiado severos com aquilo que deu origem ao que nos tornámos. Por isso não vale a pena julgar, tomar partido. É se calhar preferível olhar e tentar perceber. De certa forma, Malick filma como se não houvesse amanhã, quer dizer, tenta captar esse momento anterior à história, tenta perceber como foi esse primeiro olhar entre dois povos, duas culturas, dois mundos que nem sequer suspeitavam da existência um do outro.
O que nos leva de novo aos planos demorados do filme sobre a paisagem virgem da Virgínia, onde o filme tem lugar (pelo menos na sua maior parte). É quase uma forma obsessiva de filmar a paisagem, o território. E nem sequer se diga que isso torna o filme uma espécie de documentário do National Geographic, porque apesar de tudo, o olhar da câmara de Malick é um olhar carregado, é um olhar perscrutador. O plano demora-se a observar a paisagem porque há uma esperança de que as respostas estejam inscritas no território, que haja efectivamente uma resposta, e que à força de olharmos a terra essa resposta se poderá revelar, quase como se estivéssemos num laboratório, numa câmara escura, à espera que a fotografia se revelasse, se desvelasse.
Mas para além disto tudo, o filme de Malick é ainda uma comovente história de amor. E é aqui que, na minha opinião, o filme se agiganta, porque o que torna esta história comovente não são apenas ou sobretudo as suas peripécias, o seu enredo, mas a forma como ela está contada, o modo como, mais uma vez, Malick não resiste ao desafio de tentar mostrar a essência do amor através dessa acção simples e pura que é olhar para ele. Não interessa tanto o modo como as coisas acontecem, os factos e as suas cronologia e causalidade; interessa muito mais olhar o amor, tentar captar aquilo que nele não se vê nem se diz. Deixá-lo livre na orla dos bosques ou na margem dos rios, e tentar fixar num plano aquilo de que ele é feito. Tentar, de certo modo, compreender o incompreensível. E fazê-lo com a certeza aguda e triste e serena de que um filme assim está à partida condenado ao fracasso.
Tags: