May 7th, 2006

rosas

mérida








Retirado de um caderno, escrito nos dias 14 e 15 de Abril de 2006 (editado)

«De repente chegas a uma cidade que não te dizia nada, de que praticamente nunca tinhas ouvido falar. E essa cidade, no momento em que percorres pela primeira vez as suas avenidas e ruas a bordo de um autocarro de turismo, nesse mesmo momento, essa cidade começa a falar contigo. A dizer-te coisas, a falar-te de ti, tanto quanto dela própria.

Viajamos sempre, claro, para nos encontrarmos connosco, com algum lado de nós que está à nossa espera (que tem estado à nossa espera) nalgum insuspeito ponto do globo.

Foi tudo assim com Mérida, a capital do estado do Yucatán. Entraste na cidade e ela foi-te logo familiar. Mostrou-te, pôs-te em contacto, com um mundo que reconheceste como podendo ser teu. Sentiste-te de imediato à vontade, pisaste os passeios como se sempre os teus pés estivessem habituados àquela textura, àquela cor, aquele tamanho. É tão inacreditável tu estares a pisar pela primeira vez uma cidade e ela ser-te logo familiar, teres aquela sensação de que chegaste a casa, andares confiante e descontraído por cruzamentos e nunca te passar pela cabeça que podes estar perdido ou desorientado.

Mais? Mérida é uma cidade plana, baixa, espraiada, com árvores nos passeios, acácias vermelhas e cobrir de sombra praças rectangulares. Há qualquer coisa com as cidades coloniais. Trazem uma pele interior e profunda. Não sei, talvez o sentido das coisas que não fazem sentido.

Soy loco por ti América. Pela primeira vez desde que chegaste ao México a frase de Caetano faz sentido neste país que conheces agora.»

~*~

«Ontem à noite fui de táxi até à Plaza de la Independencia, também conhecida por Plaza Grande, que, apesar de ser sexta-feira santa e de, segundo nos dizem, a cidade estar deserta, apesar de serem onze e meia da noite, ainda tem muita gente espalhada pelos bancos da praça central e pelas esplanadas em volta, nas arcadas dos edifícios históricos. Já na Calle 60, sentei-me na esplanada no Café Péon Contreras, que fica no edifício do teatro com o mesmo nome (e onde se anuncia, para o final do mês, o Rigoletto, de Verdi). Bebi um daiquiri de fresa. Depois a pé até ao hotel, talvez uns dois quilómetros.

Passámos a manhã de hoje no centro de Mérida. Visita a edifícios históricos e compras na livraria Dante: poemas de Sor Juana Inês de la Cruz e um guia da cidade (sim, faz sentido comprar um guia de uma cidade quando nos preparamos para a despedida). Depois, para a esplanada do Péon Contreras, sob as acácias, a fazer horas, conversando e bebendo capuccinos.

Realmente não estava preparado para me apaixonar por Mérida. Ainda bem. Que não estava preparado, e que me apaixonei. Ao contrário do que se costuma dizer, não acho que tenha deixado um bocadinho de mim nos lugares pelos quais me apaixonei. Pelo contrário, esses sítios acrescentam-me, trago de lá um bocadinho de mim que ainda não tinha, que ainda me faltava. Apesar de eu não fazer a menor ideia até ter entrado na cidade, que ainda me faltava esse pedaço que lá fui encontrar.»
rosas

the new world

Suponho que The New World, de Terrence Malick, seja daqueles filmes aos quais se aplica o lugar-comum de que ou se amam ou se odeiam. Nesse caso, e para encurtar razões, eu faço parte do clube dos que amam. A questão então resume-se a tentar perceber as razões para esse amor!
A verdade é que, logo à partida, eu gosto de filmes contemplativos, de longos e demorados planos, em que a acção, para usar um termo fácil, escorre mais das próprias imagens, é uma coisa que se vai compondo ao longo do filme, digamos que não é tanto a acção que conduz o filme, mas que se deixa levar por ele.
Depois o filme tem uma pureza, uma candura. Que não deve ser confundido com ingenuidade, aliás o filme não é nada naive, tem até uma crueldade que o torna um objecto magoado e doloroso. Não há nada daquela história do bom selvagem, há no filme como que a consciência amarga que a chegada dos primeiros colonos ao solo da América do Norte iria determinar um novo mundo, enunciado no título do filme, e o filme de certo modo como que nos mostra os pedaços de que era feito o velho mundo, esse que morreu para dar lugar ao novo. Sem julgamentos, sem juízos críticos. A história é uma inevitabilidade e não é um bom princípio sermos demasiado severos com aquilo que deu origem ao que nos tornámos. Por isso não vale a pena julgar, tomar partido. É se calhar preferível olhar e tentar perceber. De certa forma, Malick filma como se não houvesse amanhã, quer dizer, tenta captar esse momento anterior à história, tenta perceber como foi esse primeiro olhar entre dois povos, duas culturas, dois mundos que nem sequer suspeitavam da existência um do outro.
O que nos leva de novo aos planos demorados do filme sobre a paisagem virgem da Virgínia, onde o filme tem lugar (pelo menos na sua maior parte). É quase uma forma obsessiva de filmar a paisagem, o território. E nem sequer se diga que isso torna o filme uma espécie de documentário do National Geographic, porque apesar de tudo, o olhar da câmara de Malick é um olhar carregado, é um olhar perscrutador. O plano demora-se a observar a paisagem porque há uma esperança de que as respostas estejam inscritas no território, que haja efectivamente uma resposta, e que à força de olharmos a terra essa resposta se poderá revelar, quase como se estivéssemos num laboratório, numa câmara escura, à espera que a fotografia se revelasse, se desvelasse.
Mas para além disto tudo, o filme de Malick é ainda uma comovente história de amor. E é aqui que, na minha opinião, o filme se agiganta, porque o que torna esta história comovente não são apenas ou sobretudo as suas peripécias, o seu enredo, mas a forma como ela está contada, o modo como, mais uma vez, Malick não resiste ao desafio de tentar mostrar a essência do amor através dessa acção simples e pura que é olhar para ele. Não interessa tanto o modo como as coisas acontecem, os factos e as suas cronologia e causalidade; interessa muito mais olhar o amor, tentar captar aquilo que nele não se vê nem se diz. Deixá-lo livre na orla dos bosques ou na margem dos rios, e tentar fixar num plano aquilo de que ele é feito. Tentar, de certo modo, compreender o incompreensível. E fazê-lo com a certeza aguda e triste e serena de que um filme assim está à partida condenado ao fracasso.