May 5th, 2006

rosas

reflections in a golden eye

Vi (e gravei) finalmente, uma destas noites na rtp memória, do princípio ao fim, Reflections In a Golden Eye, o filme que John Huston fez a partir de uma história de Carson McCullers (a autora de, entre outros, A Balada do Café Triste e O Coração é um Caçador Solitário). O filme tem três grandes motivos de interesse. O primeiro é tratar-se de uma daquelas histórias bizarras sobre pessoas disfuncionais, com a atracção especial de ter um fundo, nunca mencionado mas nada subtil, de homossexualidade. Os outros dois grandes motivos de interesse são o Marlon Brando, a fazer de um Major do Exército casado com uma doidivanas e que nutre uma paixão secreta por um soldado, e a Elizabeth Taylor, a fazer da esposa doidivanas do Major, e por quem o referido soldado está secretamente apaixonado e que lhe entra no quarto de noite à socapa, para a olhar dormindo e para lhe snifar a lingerie. Há um outro motivo de interesse, que é o referido soldado (desempenhado por um inacreditavelmente belo e jovem Robert Forster) gostar de galopar a cavalo todo nu. Que um tal filme tenha sido realizado em 1967, e por um dos mais clássicos realizadores norte-americanos, só aumenta a bizarria da coisa.
O filme não tem o rigor e a beleza de outros filmes do mesmo género, tipo Quem Tem Medo de Virgínia Wolf ou mesmo Um Eléctrico Chamado Desejo, para referir dois filmes à volta de temas similares e com os mesmos actores. Aliás, nalguns aspectos o filme é mesmo uma ‘salganhada’, hesitando, nem sempre nos sítios certos, ora por um registo demasiado contido, ora por algum histerismo de fácil efeito. Mas vale sobretudo pela forma como Huston resolve a componente homossexual da história, nunca a mencionando de forma explícita, mas, como referi, nunca escamoteando a atracção do major pelo soldado, tanto que se trata de um dos principais fios condutores da história.
Há um cena fantástica, que não resisto a contar. O Major tinha dado um passeio a cavalo no Firebird, o cavalo (branco) preferido da mulher. Por estar visivelmente perturbado, conduz mal as coisas, sofre um acidente, e vinga-se no animal chicoteando-o com violência. Quando a Taylor descobre o animal ferido, numa noite em que o casal está a dar uma festa, pega no pingalim, chega-se ao pé de um Brando todo aprumado, e desfere-lhe meia dúzia de chibatadas no rosto. O Brando mantém-se absolutamente impassível, enquanto o seu rosto vai ganhando mais feridas a acrescentar às que já tinha do acidente. Caraças, acho que nunca na minha vida tinha sido percorrido por um tão poderoso frémito sado-masoquista.