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páramo e o arcanjo
rosas
innersmile
Fim de semana muito proveitoso: dois concertos, filmes… e livros.
Ontem terminei a leitura de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, que foi um dos livros mais surpreendentes que já li. É a história de Juan Preciado que chega a Comala à procura do seu pai, Pedro Páramo, e descobre uma aldeia cheia de vazio, de mortos, de assombrações, de espectros. O livro deve ser lido como uma metáfora sobre a América Latina em geral, e o México em especial, não tanto da situação social ou política, mas sobretudo uma metáfora sobre a sua própria condição cultural. Mas o prazer da leitura vem sobretudo da lindíssima escrita de Juan Rulfo (o livro é considerado uma das bíblias do realismo mágico), das imagens surpreendentes e arrepiantes, mas carregadas de sentido e simbolismo. Uma das minhas preferidas foi a de uma das personagens que, durante o sono, ouvia a Terra a ranger no seu movimento de rotação. Acho que nos próximos dias vou pôr aqui uns excertos da novela.
Entretanto, terminada a leitura do livro de Rulfo, peguei em A Máquina do Arcanjo, do Frederico Lourenço, e claro que foi tudo a eito, li-o todo ontem, de uma assentada. O estilo é o de Amar Não Acaba, uma visão auto-biográfica cheia de humor e vista de uma certa distância, digamos, literária. Em causa está a primeira, e avassaladora, grande paixão amorosa concretizada do narrador. O livro de certa forma vai mais longe do que o anterior na identificação de pessoas e situações, e vai até ao ponto de descodificar passagens e personagens de outros livros do autor. Ocorreu-me a dúvida até que ponto este à-vontade intimo não poderá ser uma consequência do êxito de Bilhete de Identidade, o livro da Maria Filomena Mónica. Mas o que distingue Frederico Lourenço, para além das características habituais nos seus livros (a fluência da escrita, a erudição das referências, o sentido de auto-ironia), é o sentido do romanesco. É assim uma espécie de ‘a minha vida dava um filme’, não no sentido da presunção ridícula, mas mais na capacidade de contar de forma literária episódios e peripécias da vida. Será mais tipo a minha vida, como qualquer vida, dava um filme, desde que a gente a saiba pegar pelo lado certo.
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