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bernardo e alice em concerto+glicínia
rosas
innersmile
A apresentação ao vivo, esta noite, no Gil Vicente, de Alice, a banda sonora que Bernardo Sassetti fez para o filme homónimo de Marco Martins, prova, e reforça, algumas ideias com que já tínhamos ficado, quer do visionamento do filme, quer sobretudo da audição do cd. A primeira é que Alice se estrutura como uma suite, uma peça única, com apresentação e desenvolvimentos, e que junta a música com efeitos de sonoplastia (a que no espectáculo ao vivo se juntam as imagens projectadas). Mas a principal ideia é a de que Alice, a música, ganha um estatuto de autonomização em relação ao próprio filme que esteve na sua origem. Com efeito, este trabalho de Sassetti é de tal forma coerente a maduro, que serve não apenas de apoio narrativo ao filme, como, por força da sua imensa capacidade evocativa, serve, digamos assim, de banda sonora para o filme imaginário que cada espectador ouvinte for capaz de inventar. É uma torrente, controlada a rigor, de emoções e sentimentos que funcionam como uma superfície onde nos podemos fazer reflectir. Apesar das alturas de Índigo, e do aprumo de Ascent, este Alice é, até ao momento, o meu trabalho preferido de Bernardo Sassetti.

Faz dois dias faleceu a actriz Glicínia Quartin. Tive o privilégio, numa altura em que ia muito ao teatro em Lisboa, de ver pelo menos duas peças no Teatro da Cornucópia em que Glicínia entrou. Para além de ter uma história pessoal riquíssima, daquelas que tinha a idade e o pulsar do século XX português, Glicínia era uma daquelas actrizes carismáticas, que fazem do próprio acto de pisar o palco, de projectar a voz, o princípio do seu trabalho de actor. Apesar dos anos, é daquelas coisas que não se esquece, a forma como Glicínia, já uma mulher de idade respeitável, usava o corpo, a forma de estar em palco, como parte do jogo de sedução que o actor sempre joga com o espectador. Pela forma como viveu o teatro, de entrega e exigência, Glicínia é daqueles nomes que se escrevem a letras de oiro na história do teatro português.
Para além disso tudo, Glicínia Quartin é uma pessoa, uma mulher, que nos provou, neste tempo em que se cultiva tanto o ideal da juventude, que a velhice é uma idade muito bonita, fascinante, em que se pode ser fisicamente belo e interessante, e se tem aquela sabedoria que só a experiência e a vida e os anos são capazes de proporcionar.


Eu sei que é um bocado infeliz um tipo andar a citar-se, o que, no livejournaling way of life, corresponde a pôr links para as suas próprias entradas! Mas é curioso como o que escrevi hoje sobre Alice reproduz fielmente o que escrevi aqui quando ouvi o cd. E já que estou com a mão na massa, um link para uma entrada (há precisamente um ano) onde o pretexto foi uma entrevista de Glícinia Quartin ao Expresso.
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antónio rosado
rosas
innersmile
Recital de piano de António Rosado, hoje, ao fim da tarde, no Gil Vicente. O recital anunciava-se no âmbito de um congresso de nome obtuso (O Artista como Intelectual. No Centenário de Fernando Lopes-Graça), mas mais obtuso era o facto de o auditório do TAGV estar literalmente às moscas. Tanto, que se tornava quase embaraçoso, apetecia pedir desculpa ao pianista por aquele deserto frio e vazio que se estendia à sua frente.
E que pena! Rosado é um pianista excepcional, dos melhores que eu tenho visto, e, dos portugueses, já vi alguns. Um enorme sentido do piano e uma extraordinária musicalidade, fazem do recital de Rosado uma experiência quase arrepiante. Não se sente qualquer tipo de oposição entre o instrumento e o executante, mas também não é exactamente uma questão de simbiose, é mesmo um domínio muito grande. Só para dar um exemplo, com Pedro Burmester temos um pouco a sensação de que o pianista arranca a peça do piano, há como que um desafio. Com Rosado é como se a música estivesse a nascer ali, a brotar nesse mesmo momento do seu pianismo. Enfim, falta-me linguagem, falta-me oficina para falar, e para saber do que estou a falar, mas há coisas no palácio que maravilham o olhar (no caso, o ouvido) de qualquer bovino!
Só mencionar que foram tocadas obras de Fernando Lopes Graça, Alban Berg e Zoltán Kodály. Infelizmente o programa não menciona que obras e a minha ignorância é atroz e irritante.
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