April 27th, 2006

rosas

sophia e jorge

Quando lemos escritos (diários, cartas, etc) de figuras públicas, que nasceram na esfera privada e a ela exclusivamente se destinaram, fazemo-lo com dois objectivos que não sendo contraditórios, são apesar de tudo de sentido diverso. Por um lado, esperamos descobrir alguma coisa, uma imanência qualquer do plano íntimo, que estivesse escondida no plano público. E por outro procuramos nesse plano íntimo alguma coisa que torne mais claro, que ilumine, isso que já conhecíamos da personagem. Estes dois objectivos são mais claros quando estamos a falar de escritores: na leitura desses escritos privados procuramos, de certa forma, a fractura de mediocridade que nos diga que os grandes também se abatem. Mas procuramos também, muitas vezes, na biografia ou no comportamento privado dos escritores, sinais que acrescentem alguma coisa àquilo que já conhecemos dos livros.
De certa forma, foi com este duplo espírito que li a correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, entre 1959 e 1978, e recentemente editada.
E refira-se que quer num quer no outro aspecto, o livro cumpre. Por um lado, as cartas, mais as de Sena mas também as de Sophia dão-nos uma perspectiva privilegiada para o pequeno meio literário lisboeta sobretudo da década de 60, muito dominado pelas tricas, pelas panelinhas, pelas sinecuras políticas (sim, a questão põe-se: então como agora?). Por outro, é sempre um prazer enriquecedor descobrirmos coisas que clarificam, que acrescentam, que iluminam aquilo que conhecíamos, ou mesmo apenas suspeitávamos, do conhecimento que trazíamos já do plano literário. Neste aspecto é exemplar a carta que Sophia escreve a Sena sobre a sua primeira ida à Grécia; só não é reveladora, porque o fascínio de Sophia pela Grécia é transbordante na sua poesia, mas não deixa de ser uma experiência riquíssima ler como esse fascínio cresceu, e se expressou, no plano privado, no plano da vida real.

Uma carta que me interessou particularmente é aquela em que Sophia relata a Sena a sua viagem ao México e as suas impressões dessa viagem. E é interessante porque de certo modo aquilo que Sophia transmite coincide com algumas das minhas impressões do que conheci do país, mas sobretudo pelo que nos diz dos referentes culturais da própria Sophia e da forma como ela se confrontou com uma cultura tão diferente. Respigo os seguintes trechos: «(…) a arte destes povos é terrível, uma arte de terror e complicação, onde nunca se passa da magia ao divino. Os deuses parecem demónios (…). A estilização nunca simplifica antes complica, e tudo é baralhado. A serpente é pássaro, o sacerdote é tigre pássaro borboleta. E tudo de acumula: por cima da boca uma tromba, por baixo dos beiços outros beiços, por cima da língua outra, por cima da cabeça plumas, por cima das plumas cornos, setas, bandeiras tudo isto rodeado de braços, discos, triângulos que rodopiam à roda da personagem que acaba por se confundir, com a árvore, a ornamentação e o outro personagem (…). É raríssimo encontrar [na escultura] um rosto simplesmente belo. E através disto tudo há não sei que esgar simultaneamente cruel e festivo.»
Também afirma, na mesma carta, que «A população que aqui se vê na rua é praticamente toda índia, doce e simpática e com um ar de susto ancestral.»
E termina a carta escrevendo: «(…) acho que há um dever de ver. Mas é um mundo que não posso nem quero integrar. Parece-me um desvio do homem: Terror, sacrifícios humanos, uma arte de esgar, uma grande festa da crueldade. O facto de terem inventado o zero não chega»

Apesar de eu não ter subido às pirâmides, o trecho da carta de Sophia que me parece mais bonito é aquele em que ela relata as impressões de ter subido ao cimo da Pirâmide do Sol. É assim:
«As pirâmides têm uma extraordinária imaginação geométrica. Os degraus são tão a pique que enquanto se sobe só se vê em cima o céu e parece ser o último terraço e a última escadaria, mas quando se chega ao cimo há um novo terraço e uma nova escadaria. O que está para vir está oculto, acede-se à visão final através de ignorâncias, ou não-visões, sucessivas. Tudo extremamente complexo e dá a impressão dum mistério muito elaborado.»