April 26th, 2006

rosas

inside man

Inside Man, a mais recente 'joint' de Spike Lee, deixa-nos perante algumas dúvidas. Bom, a começar por dúvidas relativas ao próprio argumento do filme, que, apesar de parecer complicado e engenhoso, por vezes é demasiado simplista e mal resolvido. Sirva de exemplo a personagem desempenhada pela Jodie Foster: não se percebe o que anda por ali a fazer, qual o seu papel, qual o sentido e a verdade da personagem; é apenas uma caricatura funcional, instrumental, sem qualquer relevância própria. A verdade é que relativamente ao plot do filme, chegamos ao fim com a sensação de que se tratou de muito barulho por nada.
O problema é que o filme está feito com mão de mestre, com uma desenvoltura narrativa quase luxuriante, um tipo baba-se de prazer com os planos, as sequências, os enquadramentos. Além disso, Spike Lee enche a acção de pequenos apontamentos, de linhas de diálogo, que trazem intacto o seu habitual humor corrosivo, dando ao filme algum do substrato social e até político que é usual no seu cinema. Acresce a isto tudo o brilhantismo do desempenho dos principais actores. Denzel Washington consegue manter ao mesmo tempo o registo do 'good cop', com quem simpatizamos, com a ambiguidade de uma personagem que sabe mais do que conta. O Clive Owen comete a proeza espectacular de passar a quase totalidade do filme de cara tapada, com uma máscara e óculos escuros, e no entanto ser sempre cheio de elegância e expressividade. Até Jodie Foster arranca uma interpretação ao seu nível de uma personagem que, como referi, não existe. Christopher Plummer (edelweiss, edelweiss), Willem Dafoe e Chiwetel Ejiofor ajudam a manter o nível elevado.
De referir, por fim, a banda sonora de Terence Blanchard, que inclui uma faixa no genérico, Chaiyya Chaiyya que é um êxito da música de Bollywood, e que fazia parte do musical Bombay Dreams, de AR Rahmen.