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Foi o dia mais cansativo, e também o mais longo, da viagem. Chegámos a Chichén Itzá ao princípio da noite, a um lodge construído ao estilo das casas das herdades agrícolas do velho Yucatán. Na verdade, o primeiro hotel construído em toda a península para trazer os turistas aos tesouros dos antigos santuários mayas.
Nesse dia tínhamos visitado dois sites arqueológicos, o que implicou longas caminhadas de quilómetros e uma camada de poeira que se distribuía com fartura do cabelo às sandálias. Subi até ao meu quarto, no terceiro andar, e entrei directamente para a banheira. Só depois reparei na amplidão do quarto, no seu ar levemente demodé, nas persianas pesadas de madeira nas janelas com rede mosquiteira, na varanda aberta para o Observatório.
Mais tarde, nessa noite, desfrutei do enorme salão de entrada do hotel, dominado por uma escadaria imponente que descia de um mezzanine, e por dois enormes retratos a óleo dos seus fundadores, e desfrutei ainda de uma Margarita tomada no pátio ao ar livre do bar. O despertar na manhã seguinte seria ao som do canto das centenas de pássaros que criam o mais poderoso, mas também o mais harmónico, dos despertadores. Antes do pequeno-almoço, dei um passeio pelos jardins do hotel, aproveitando a ausência de pessoas e a limpidez da primeira luz da manhã.

Mas antes disso jantámos Sopa de Lima na sala de jantar do hotel, com as imensas portadas abertas para a esplanada e o jardim. A meio da refeição aproximaram-se da mesa dois músicos (não consigo chamá-los mariachis), as impecáveis guayaberas cor de marfim sobre o cetim acastanhado da pele, os cabelos brilhantes de tão negros. Dois homens ainda novos, bonitos, que cantavam afinadamente a duas vozes êxitos populares da canção latino-americana, daqueles para turista ouvir, tocando nas suas violas já gastas de muitas noites a entreter viajantes desatentos. Tocaram duas canções, a primeira um desses incontornáveis temas que conhecemos desde a infância. Atacaram o segundo, que de imediato me soou muito familiar, mas secreto o suficiente para não ser desses cujas melodia e palavras nos saltam logo à cabeça. Só no refrão o consegui identificar: era o Fina Estampa, da peruana Isabel 'Chabuca' Granda, mas que eu conheço da extraordinária versão do Caetano Veloso, que o utilizou como mote, e título, do disco já antigo que dedicou ao songbook da latina América.
Claro que nessa altura eu já estava completamente apaixonado por Chichén Itzá, e pelo seu lodge todo aberto à luz e aos sons do interior do Yucatán. Mas o que esses dois músicos morenos, bonitos e distraídos me deram foi a mais perfeita das bandas sonoras para essa noite de distância feliz e melancólica.

Una veredita alegre,
con luz de luna o de sol,
tendida como una cinta
con sus lados de arrebol,
arrebol de los geranios
y sonrisas con rubor,
arrebol de los claveles
y las mejillas en flor.

Perfumada de magnolias,
rociadas de mañanita,
la veredita sonríe
cuando tu piel acaricia,
y la cuculí se ríe
y la ventana se agita
cuando por esa vereda
tu fina estampa pasea.

Fina estampa, caballero;
caballero de fina estampa, un lucero,
que sonriera bajo un sombrero, no sonriera
más hermoso, ni más luciera, caballero,
y en tu andar andar, reluce
la acera al andar andar.

Te lleva hacia los zaguanes
y a los patios encantados,
te lleva hacia las plazuelas
y a los amores soñados.
Veredita que se arrulla
con tafetanes bordados,
tacón de chapín de seda
y fustes almidonados.

Es un caminito alegre
con luz de luna o de sol,
que he de recorrer cantando,
por si te puedo alcanzar.
Fina estampa, caballero...
¡Quién te pudiera guardar!...