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como me afoguei
rosas
innersmile
Segundo livro do Jim Grimsley que li em poucos meses, Como Me Afoguei (My Drowning), e, tal como o anterior, passado no sul dos Estados Unidos no seio de uma família de 'white trash'. Curiosamente Grimsley é considerado um autor gay, mas este é o segundo livro dele em que o tema da homossexualidade está ausente, se bem que no anterior havia um aspecto interessante: a principal personagem do livro era um rapaz que haveria de reaparecer num outro romance do autor, já adulto, hemofílico e portador de VIH.
Voltando a CMA, o livro é um longo flashback de Ellen Tote, que procura na sua infância miserável uma razão para um sonho recorrente durante o qual ela assiste ao afogamento da sua mãe, um pesadelo tanto mais inquietante por ser bastante sereno. Grimsley tem um particular talento para criar um clima de forte comoção, dominado pela violência doméstica e pela pobreza extrema, mas sem nunca ser piegas ou miserabilista. O que eu acho que está mais bem conseguido no livro é a sensação de dolorosa perplexidade com que Ellen vive o seu duro infortúnio, bem como a sua enorme capacidade de se ir adaptando à hostilidade que a rodeia, em que o instinto de auto-preservação é a sua única defesa.
Um livro difícil, apesar da escrita fluente do autor, que consegue envolver narrativamente o leitor nas infelizes peripécias da heroína. Mas o resultado dessa dificuldade é terminarmos o livro profundamente apaixonados por Ellen, em respeito à sua infância, mas sobretudo à sua capacidade de a superar e de ser feliz.

«Estou descalça, mas agora é porque gosto de estar, e às vezes só calço peúgas, deslizando alegremente as peúgas pelo linóleo, e às vezes uso peúgas e chinelos, e às vezes uso chinelos sem peúgas. A liberdade é uma coisa formidável, e consiste em milhares de detalhes insignificantes.»
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