April 7th, 2006

rosas

o amor ao canto do bar vestido de negro

Parece-me que um dos sinais determinantes de uma marca autoral é quando, postos perante um trabalho novo, e ainda desconhecido, de um autor, esse trabalho nos parece como um desenvolvimento coerente daquilo que já identificávamos como pertence ao universo desse autor. É isso que, na minha opinião, acontece quando começamos a ver o mais recente espectáculo de Olga Roriz, para a sua companhia, O Amor ao Canto do Bar Vestido de Negro. Não é tanto aquela coisa de reconhecermos os traços da marca ‘Olga Roriz’, e nesse aspecto este espectáculo é assaz surpreendente, mas é sobretudo conseguirmos fazer uma leitura (‘uma’, e não necessariamente ‘a’) que ao mesmo tempo que nos surpreende nos parece essencialmente coerente.
De que trata OAACDBVDN? O que é que as pessoas fazem num bar? A resposta à National Geographic é que bebem, fumam, e praticam rituais de acasalamento. Basicamente é isso que assistimos em OAACDBVDN: bebe-se, fuma-se e praticam-se rituais de acasalamento.
Agora a questão é porque é que isso nos parece, assim que nos acomodamos ao espectáculo, tão natural, como se se representasse no espectador a reconfortante sensação de que o espectáculo, e a sua autora, só poderiam ter avançado nesta direcção?
Numa paisagem mediterrânica, Sunset Boulevard encontra Morte em Veneza. Sim, o dispositivo é claramente cinematográfico, como nunca o foi nenhuma das peças anteriores de Olga Roriz que eu vi. Estamos, portanto, no terreno do cinema. A bordo de um Titanic romântico, a orquestra vai tocando enquanto os passageiros se cruzam, bebem e fumam, aproximam-se e afastam-se, chocam e saltam. Claro que há a inevitabilidade do iceberg, mas enquanto a noite não chega, dança-se no salão.
O que realmente parece inevitável é que OAACDBVDN questiona o romantismo, quer saber como é que a ideia romântica consegue subsistir na fragilidade dos corpos. Ou melhor, e essa é outra das surpresas deste espectáculo de Olga Roriz, como é que há lugar para o romantismo quando os homens são de um desamparo frágil e estonteado. Impressiona como as mulheres em OAACDBVDN são sempre tão elegantes, quer riam quer sofram, quer se ofereçam quer se vendam. São sempre elas próprias, não se desfazem, são o que sempre são. Ao contrário dos homens que nesta peça de Olga Roriz andam sempre desamparados, belos ou patéticos, tranquilos ou desorientados, mas sempre desamparados, sempre a arriscar o desequilíbrio de quem tem as pernas presas pelas próprias calças.
Não deixa também de ser significativo, e bonito, que Olga Roriz coloque essa interrogação sobre o lugar possível para o romantismo num espectáculo em que se dança muito, em que se dança sempre. Do princípio ao fim, sempre a dançar, incessantemente. Como no salão do Titanic: a orquestra toda a noite a tocar enquanto os pares dançam sem parar. Mesmo sabendo que lá fora no convés já sopra o vento glaciar do bloco de gelo.