April 1st, 2006

rosas

materna doçura+viegas+novidades

Materna Doçura, baseado no romance de Possidónio Cachapa, pelo Trigo Limpo ACERT, adaptado e encenado por José Rui Martins. Gostei bastante do texto, que achei muito divertido e provocador, e também gostei muito da solução encontrada para a peça, uma espécie de ‘bio-play’, que vai contando a história da personagem principal e da sua (não tão) estranha fixação materna, ao mesmo tempo que dá o tom para um certo Portugal dos cinzentos anos 60 e 70. De cinzento não tem nada a solução cenográfica da peça, apesar de até ser esse o tom dominante do cenário; um dos interesses do espectáculo é a verdadeira aventura que se torna para o espectador o ir descobrindo as mil e uma soluções do dispositivo cénico, verdadeira caixinha dos milagres de onde vão literalmente emergindo todos os cenários da fantástica história do personagem que tinha o inusual nome de Sacha.

Aqui no innersmile não se assinalam, por norma, efemérides, mas há datas e datas, e hoje completam-se dez anos sobre a morte do Mário Viegas. Há duas coisas essenciais que tem de se dizer acerca do Mário Viegas. A primeira é que podemos sentir saudades de alguém que nunca conhecemos, de quem não éramos amigo ou familiar, mas que nos faz falta como se tivesse sido o mais íntimo dos companheiros. A segunda é que o Mário Viegas desmente aquele lugar-comum de que ninguém é insubstituível. É mentira. O Mário Viegas foi-se e a sua ausência continua a incandescer na noite escura.
Conheci o Mário Viegas quando cheguei a Portugal, perto no final do ano de 1976 e fui desterrado para Trás-os-Montes. Foi lá que o conheci, porque ele apresentava um programa na televisão que se chamava Peço a Palavra, e onde fazia de juiz-presidente de uma assembleia de crianças que discutiam variados assuntos. Nunca mais vi um footage desse programa, uma simples fotografia, tudo o que resta é um fiapo desgarrado de memória. A rtp-memória bem que podia dar uma ajuda. Vi-o depois na tv a dizer poemas, numa das séries de programas de declamação que ele apresentou, e que tenho em cassete vhs.
Tive a sorte, a felicidade, de conhecer o Mário Viegas melhor. E ao vivo. Vi-o em, pelo menos, duas peças d’A Barraca, Zé do Telhado e Dom João VI. Vi-o também a fazer O Suicidário, um desempenho mítico do Mário Viegas, uma daquelas coisas de que as lendas são feitas, já no Novo Grupo, com encenação do João Lourenço. Vi-o mais uma vez ao vivo numa sala do actual centro comercial Avenida, penso que onde hoje funciona um ginásio, e que durante uns tempos a sala residente do Bonifrates; foi um programa duplo, julgo que a primeiríssima peça da Companhia Teatral do Chiado, O Regresso de Bucha e Estica. O Mário Viegas não entrava nesta peça curta, só encenou, mas a segunda parte do serão era o Mário Viegas a dizer poemas à volta do tema do cinema. Acho que foi um dos momentos mais especiais que eu já vivi. Só suplantado pela derradeira vez que o vi ao vivo, de novo no Gil Vicente, a fazer Europa, Não! Portugal, Nunca! Apesar de serem já evidentes as marcas da doença, o Mário Viegas fez o mais convincente, cáustico e comovente pré-pré-candidato à Presidência da República.
No cinema, vi o Mário Viegas a fazer o sulfuroso Rei das Berlengas, do Artur Semedo, um dos primeiros filmes que vi na idade adulta, e que marcou definitivamente um dos meus gostos cinéfilos, e que me pôs, para sempre, a ver cinema português. Vi-o também naquele que é porventura o seu papel mais conhecido no cinema, o mais patético e sanguinário gangster português, Kilas, O Mau da Fita. Aliás, o Mário Viegas era presença regular nos filmes do José Fonseca e Costa (Sem Sombra de Pecado, A Mulher do Próximo) e tenho ideia de ele entrar igualmente em filmes do Manoel de Oliveira.
Do Mário Viegas guardo ainda um catálogo de uma exposição no Museu do Teatro ( a única vez que lá fui) e um álbum editado pela Cinemateca. Sei que há um Auto-Bio-Graphia, mas nunca lhe consegui deitar o dente.
O jornal O Público vai editar, a partir da próxima terça-feira uma colecção de 12 livros-cds, com toda a sua discografia (ah, esqueci-me de dizer que também tenho um cd do Mário Viegas a dizer poemas).

Já que estou com a mão na massa, e que esta entrada está demasiado longa e portanto na irresistível categoria das ilegíveis, aproveito para dizer que já está à venda o mais recente romance de João Paulo Borges Coelho, Crónica da Rua 513.2. O JPBC é um moçambicano natural do Porto, e, não me farto de o dizer, é um dos melhores, dos muito melhores, escritores de língua portuguesa actuais.
Também comprei Canções & Fugas, o disco a solo de Mário Laginha, que estou a ouvir agora, e que estou a achar muito bom. É um disco especial que provoca no ouvinte a perplexidade de não conseguir perceber muito bem se está a ouvir um disco de jazz se de música clássica.
Finalmente comprei o dvd com uma gravação Ao Vivo no São Luiz do Camané, que ainda não vi, mas que só pode ser boa! Comprei sem ler sequer o alinhamento do dvd, e portanto devo dizer que fiquei um pouco decepcionado por não ter o Fado da Sina, que eu acho que é o maior milagre que o Camané já fez ao fado. Mas, pronto, não se pode ter tudo, e o que se tem já é muito bom.