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rigoletto
rosas
innersmile
Fui ontem ver ao Gil Vicente a ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi, pela Ópera Estatal de Bashkir. Epah!, adorei. Fiquei a perceber que realmente a ópera pode-se tornar uma dependência, aquilo termina e um tipo quer mais. É a orquestra a tocar ali ao vivo, são os cantores, o tenores, os barítonos e as sopranos, são os cenários, a iluminação, o coro, os figurantes, é tudo assim uma coisa excessiva, maior-que-a-vida. Como digo, um tipo pode muito bem e com toda a facilidade tornar-se viciado naquilo.
Admito que a companhia tenha uma qualidade mediana, que não seja o mesmo que ver uma produção no Met ou no Alla Scala, mas para mim aquilo foi mesmo excepcional, eles cantavam todos muito bem, representavam com intensidade q.b., a orquestra talvez precisasse de um bocadinho de corpo, mas mesmo assim nos momentos mais dramáticos estava lá tudo, as cordas, os trombones, as percussões. Eu sempre tive um pouco a ideia que do ponto de vista narrativo a ópera era um bocado caricatural, que esse aspecto não era para ser levado muito a sério, que o que interessava era a música e as vozes. Claro, era a ignorância a ditar, porque aquilo, mesmo do ponto de vista narrativo, é excitante. O terceiro acto, que é dominado pela tragédia, vê-se com emoção, com sentimento, apetece levantar do lugar e ir lá ao cerne da acção.
Não conhecia muito bem esta ópera de Verdi, apesar de conter um dos trechos mais famosos da história musical, o La Donna é Mobile, que acho que não há ninguém que não conheça. Claro que fiz os trabalhos de casa e tentei saber a história antes de ir assistir, para poder perceber o que se estava a passar, porque mesmo que não se entenda o que está a ser cantado, é muito fácil contextualizar e perceber a acção.
Uma das minhas árias preferidas é desta ópera, ‘Gualtier Maldé!... Caro nome’. É uma ária lindíssima, que eu ultimamente tenho ouvido muito porque faz parte da banda sonora do Match Point, que é, desde que o comprei, o cd que anda no meu carro. Uma das razões que me prendeu a atenção da ária, que eu já tinha em casa numa colectânea da Maria Callas, é que um dos seus temas é uma melodia muito simples que eu conheço desde a infância numa lenga-lenga qualquer de que não me consigo lembrar, só persistindo a melodia. Foi emocionante vê-la a ser interpretada ao vivo, perceber o contexto em que surge, deixar-mo-nos enfeitiçar e seduzir pela beleza de Gilda e pela beleza do seu amor, sermos levados pela limpidez do canto e pelo abraço envolvente da orquestra. Fabuloso.

Gualtier Maldè!... nome di lui sì amato,
Scolpisciti nel core innamorato!
Caro nome che il mio cor
Festi primo palpitar,
Le delizie dell'amor
Mi dêi sempre rammentar!
Col pensiero il mio desir
A te ognora volerà,
E pur l'ultimo sospir,
Caro nome, tuo sarà.