?

Log in

No account? Create an account

(no subject)
rosas
innersmile
De raspão, quando estava à espera do episódio de Rome, vi o Manoel de Oliveira a ser entrevistado no programa Prós e Contras, ontem à noite, na rtp1. A apresentadora, que se chama Fátima, perguntava-lhe se a razão porque ele faz aqueles planos tão prolongados era para dar tempo ao espectador para absorver melhor o que ele queria transmitir. O Oliveira respondeu, brilhantemente, que a única coisa que sabia era não queria aborrecer (eu acho que ele usou mesmo a expressão ‘chatear’) o espectador. A Fátima não percebeu que aquela era a deixa para se calar ou mudar de assunto e começou a insistir que havia uma diferença entre o cinema do ‘Mestre’ (ela não disse com letra grande, mas eu acho que era essa a intenção) e o cinema americano que habitualmente vemos e em que é tudo tão rápido que nem percebemos bem o que se passa. O Oliveira respondeu pacientemente (afinal ele tem quase 100 anos) que esse era cinema de entretenimento. A Fátima perguntou com um ar muito sério se o ‘Mestre’ não fazia cinema de entretenimento. Eu mudei rapidamente para o canal 2 com esperança que em Roma já se tivessem passado um ou dois séculos e, no circo, já se servissem cristãos aos leões.
Eu percebo que o programa tem temas muito diversificados, e que o formato é exigente em termos de preparação jornalística. Mas nada mata mais um jornalista do que dar a perceber que funciona por estereótipos, por categorias, por ideias feitas, que a sua reflexão sobre as coisas não ultrapassa a capa brilhante do verniz.

Concerteza que, face ao painel de convidados, um dos temas debatidos ontem há-de ter sido a rádio e a questão das quotas (ou dos cotas) para a música portuguesa. A rádio actual é generalizadamente muito pobre, porque a programação não passa de uma interminável e repetitiva play-list, e os radialistas pouco mais são do que dee-jays. Perdeu-se o hábito de escrever para rádio, de fazer programas com perfil e identidade. Claro que há excepções, quer em termos de pessoas, de programas, e até de estações. Uma dessas excepções é a Antena 2. Ao contrário do que se possa pensar, a programação da Antena 2 não é feita por dee-jays de música clássica, há programas muito diversos, em termos musicais, mas também em termos de concepção e filosofia. Há programas de palavra, há magazines, há programas de divulgação.
E é uma estação que surpreende, que é o mais fantástico que pode acontecer a quem ouve rádio. Um tipo está a fazer a barba ou a conduzir e de repente a rádio troca-lhe as voltas, ilumina-lhe a rotina, transporta-o para outro sítio ou outro tempo, condu-lo através da ‘memory lane’ ou por caminhos novos e insuspeitos, mostra-lhe, enfim, a vida de outra maneira. Aqui há uns dias, 2 semanas talvez, vinha eu todo lampeiro para o trabalho depois do almoço, e a Antena 2 começou a transmitir uma canção lindíssima do José Afonso, uma daquelas jóias cristalinas que, por serem pouco conhecidas, se tornam mais raras e preciosas. Tenho andando à procura de uma gravação dessa canção, que é dos primórdios da carreira do José Afonso, do tempo da canção de Coimbra, mas sem resultado. Intitula-se SENHOR POETA, a letra é do António Barahona e do Manuel Alegre, e é assim:

Meu amor é marinheiro,
E mora no alto mar,
Seus braços são como o vento,
Ninguém o pode amarrar.

Senhor poeta,
Vamos dançar,
Caem cometas,
No alto mar.

Cavalgam zebras,
Voam duendes,
Atiram pedras,
Arrancam dentes.

Soltam as velas,
Vamos largar,
Caem cometas,
No alto mar.