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casanova
rosas
innersmile
Nem me apetece falar do filme, só para dizer que Casanova, do Lasse Halltrom, é uma seca de um filme. E a coisa até parecia prometer: uma personagem intrigante, o século XVIII, a música de Vivaldi, Veneza, o Heath Ledger. Mas o resultado é um pastelão arrastado, sem chama, sem intriga, em que um certo sentido de humor que o filme tem se perde totalmente por pura incapacidade em organizar o filme e dar-lhe tensão e intensidade. Um desperdício de recursos, que não devem ter sido poucos, a avaliar pelo fausto das reconstituições venezianas. Next!
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rosas
innersmile
CUIDADOS INTENSIVOS

Despeço-me de ti. Devagar, lentamente, dia a dia.
Despeço-me de ti, no sinal sonoro monocórdico e repetitivo que te prende à vida.
Despeço-me de ti, em cada frémito que ainda sinto quando vejo os teus ombros nus, redondos, brancos como a curva do meu pescoço.
Despeço-me de ti, quando me recuso a perceber as feridas, e quando minto que é sono a ausência com que me recebes.
Despeço-me de ti, quando me pede ainda um abraço a mansa ligeireza do teu tronco, e eu finjo que me esqueci.
Despeço-me de ti, sempre que me apetece deitar ao teu lado, cobrir-nos com o lençol branco e marcado, e esperar que tu despertes como antes, quando o teu peito se erguia - tão lindo – sem a ajuda das máquinas, quando me abraçavas ainda a dormir mas já em alvoroço, e quando me dizias mais do que o tom frio da tua pele.
Despeço-me de ti, numa curva da estrada.
Despeço-me de ti, no imperceptível segundo em que a borracha do pneu perdeu o contacto com o alcatrão molhado, e o teu destino começou a afastar-se vertiginosamente dos meus dedos.
Despeço-me de ti, no tumulto das campainhas dos telefones que não param de retinir, segurando uma noite infinita para lá das paredes da casa, a cal a descolar-se dos muros.
Despeço-me de ti, em cada abraço que me dão os amigos de olhos rasos de água.
Despeço-me de ti, enquanto conto os tubos, os fios, os eléctrodos, as sondas, os ecrãs, os traçados, tudo isso que nos segura ainda um ao outro mas já irremediavelmente nos afasta.
Despeço-me de ti, no barulho almofadado do passo das enfermeiras, nos seus gestos seguros, mecânicos e tranquilizadores, na sua atenta e cordial indiferença.
Despeço-me de ti, sempre que te olho uma última vez, sempre com receio de que seja a última vez.
Despeço-me de ti, tão jovem e já tão definitivamente envelhecido, como um fruto que cai dos ramos sem chegar a amadurecer.
Despeço-me de ti, e as palavras que ressoam no meu peito têm o sabor salgado de uma revolta indizível.
Despeço-me de ti, como se as letras do futuro se soltassem e fossem gradualmente perdendo a nitidez.
Despeço-me de ti, em cada sombra ténue de um sorriso que julgo esboçares.
Despeço-me de ti. Saio a porta de vidro do hospital, atravesso o ar cinzento e chuvoso em direcção ao parque de estacionamento distante, e, de súbito, de dentro do edifício, atravessando paredes e corredores, chega-me clara e distintamente o som da tua voz chamando o meu nome. Ou então o silvo contínuo de uma máquina que dispara.
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