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Um destes dias tenho de pôr uma entrada no innersmile sobre os filmes de Hitchcock que tenho, listando-os e classificando-os. Ontem acabei de ver I Confess, um filme feito no início da prodigiosa década de 50 e que inaugura, na minha opinião, uma série de obras-primas do Mestre Alfred.
Curiosamente, foi um dos raros filmes, talvez mesmo o único, em que eu me comovi. Mesmo em relação àqueles que considero as obras-primas do realizador, a verdade é que vejo os filmes sempre numa perspectiva muito lúdica, quer pelo humor que os filmes contêm, quer pelo gozo que proporcionam. Babo-me a ver um filme de Hitch por causa dos planos, das sequências, pela forma como ele manipula a história, pelo arrojo e pela ousadia, pelo modo extremamente visual como ele conta uma história, pelos pormenores que são sempre um manancial de informação, enfim, por mil e uma razões. Mas raramente me arrebato com o destino das personagens, raramente sigo o seu destino com o coração nas mãos, em suma, raramente me comovo com elas.
Que foi precisamente o que aconteceu com este I Confess. Acreditei plenamente na verdade daquelas personagens, e por mais de uma vez me comovi com o seu destino ou com as suas acções. Acho que é dos filmes de Hitchcock com um conjunto de personagens mais forte e verosímil. Claro que, para isso muito contribui a presença de Montgomery Clift no papel do Padre Michael Logan, a personagem principal do filme, um padre que se vê incriminado pela autoria de um crime porque não pode revelar a identidade do verdadeiro criminoso que lhe foi revelada no confessionário.
No documentário que acompanha o filme no dvd, alguém cita uma das famosas e lapidares expressões do Hitchcock (suspeito que algumas delas seja o material de que são feitas as lendas) que diz mais ou menos isto: os maus filmes são fotografias de pessoas a falar, os meus são fotografias de pessoas a pensar. E o que se passa com Monty Clift é isso mesmo, todo o filme vamos acompanhando os pensamentos do Padre Logan, não através do uso corriqueiro da voz off ou de um desses truques cinematográficos, mas pura e simplesmente através do seu olhar. O olhar de Clift é simultaneamente transparente e sombrio, dá-nos conta do drama que o padre está a viver mas nunca aligeira os seus tormentos. É um olhar da alma, mas não é um olhar ‘psicológico’, ou seja é um olhar carregado de emoções e sentimentos, mas não um olhar que nos permita ir reconstruindo o caminho psicológico da personagem. Não sei se me estou a fazer entender, mas o que quero dizer é que é um olhar humano, denso, misterioso, carregado, mas expressivo e indagador, não é um olhar opaco ou baço. É um olhar que, juntamente com a gestualidade ou com a forma como anda ou como veste as roupas eclesiásticas, nos dá a verdadeira dimensão do enorme actor que Montgomery Clift era. Para já não falar, claro, do enorme sortilégio da sua beleza.
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