March 21st, 2006

rosas

(no subject)

contar a marca dos dias
(as pequenas horas) como se
o impossível deixasse nódoas
negras no teu corpo

como se a infância fosse a
cidade feliz
(larga e acolhedora) onde deitas
a face na almofada

como se o teu fracasso não se
lesse, nas rugas e no
pó dos ossos que entretêm
a longa espera
rosas

curriculum vitae

Por causa do tipo de trabalho que neste momento tenho, recebo muitas cartas de pessoas a pedir emprego. A maior parte delas são cartas que as pessoas, terminadas as licenciaturas respectivas, enviam para uma série de instituições que sabem que estão sempre a recrutar pessoas, e que facilmente conseguem colocação.
De vez em quando aparece uma carta de uma pessoa que anda genuinamente à procura de um emprego, e nota-se porque essas cartas revelam um empenho especial, lê-se o papel quase como se fosse a pessoa que estivesse ali à nossa frente. Destas, há algumas que nos prendem; por razões que nem sempre conseguimos, ou queremos, racionalizar, há cartas de pessoas que nos comovem, que parece que estão a falar connosco. Parece que, através de um pedaço de papel, essas pessoas nos entregam as suas vidas, nos tornam de alguma maneira responsáveis pelo seu destino. É!, há certas cartas de pessoas que escrevem a pedir emprego, que nos puxam para a torrente interior das suas vidas.
Hoje recebi uma dessas cartas. É de uma mulher, pouco mais nova do que eu, que pede um emprego, para usar a delicadeza fria da linguagem tecnocrática, dos menos diferenciados. Na lista das suas competências, enumera um curso de canalização. Na experiência profissional, refere que já foi operária fabril, auxiliar numa instituição de saúde, florista, ajudante de cozinha, pasteleira e já tratou de bebés. Entre os seus hobbies, refere a prática da natação, e que gosta de fotografia, de ler, de viajar, e de fazer ponto cruz e croché.
Confesso que fiquei com uma vontade indomável de contratar esta mulher. Mais não fosse, para viver a minha vida.