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a history of violence + le promeneur du champs de mars
rosas
innersmile
Vi dois óptimos filmes este fim de semana, um na Sexta-feira, na sessão da meia-noite, e outro no Sábado. Aliás este de Sábado foi mesmo em plano B, porque pretendia ir a um concerto do festival de blues mas cheguei lá e estava lotação esgotada.

O primeiro filme visto foi A History of Violence, do David Cronenberg. Apesar de não ser exactamente um típico filme à Cronenberg, está tão bem contado, tem desenvoltura narrativa. Há quem leia no filme um certo jeito à Tarantino na forma como a violência é apresentada, ou talvez sobretudo no modo cru como os personagens recorrem à violência. Mas o que eu acho que é o trunfo maior do filme de Croneberg, é a personagem de Tom / Joey, o modo como ela se vai compondo à nossa frente (e, já agora, da própria família), como vamos sabendo pormenores acerca da sua biografia, e da sua psicologia, não propriamente através de informação que o filme nos vai dando, mas sobretudo através das próprias peripécias do enredo. Esta personagem, de resto, é de contorno totalmente cronenberguiano, desde a história dos duplos, de uma pessoa ser dúplice (ou mesmo duas pessoas), até à forma quase tranquila como a personagem se vai entregando a esse seu dúplice. O que, de certa forma, é mais frágil neste filme, é que essa duplicidade é cronológica, sem o poder transfigurador habitual das histórias de Cronenberg. Seja como for, um filme excelente, muito acima da média.

De igual forma excelente Le Promeneur de Champs de Mars, de Robert Guédiguian, que conta os últimos meses da presidência e da vida de François Mitterrand. O que o filme tem de mais fascinante, e de mais honesto também, é que mantém incólume a duplicidade de sentimentos que FM inspirava em vida, nunca caindo na tentação mais fácil de dele dar um retrato simpático ou desfavorável. Todas as dúvidas, todas as sombras que pairavam sobre Mitterrand e o seu passado, ficam no filme por resolver, e ainda bem. Porque o que interessa ao filme, parece-me a mim, é sobretudo avaliar do valor de um homem enquanto símbolo de uma história, de uma país e até de um continente. Mitterrand, neste filme, pode ser lido como uma metáfora da Europa, dos seus métodos e dos seus desígnios, das suas contradições e das suas falências. A solidão de Mitterrand no final do seu mandato pode ser a metáfora do desamparo europeu.
Claro que, dito isto, não se veja no filme uma intenção demasiado programática. O que o move, sem sombra de dúvida, é o enorme fascínio que Mitterrand, o homem e a personagem que ele criou, os ódios e os amores que suscitava, a sua capacidade de varrer em volta, como se a sua sombra fosse tão poderosa que mais nenhuma sombra se conseguisse formar ao seu redor.
Aliás, é curioso porque uma das coisas que me chocou no livro de Marcello Duarte Mathias, o Diário da Índia, foi a sua reacção, violentíssima, à morte de Mitterrand. Note-se, violenta no sentido de dizer mal dele, de lhe compor um retrato devastador, assim ao nível dos grandes algozes do Século XX. O que, bem vistas as coisas, se compreende em se tratando de Mitterrand, que devia ter tanto de fascinante como de assustador! Com a agravante de no caso de Mitterrand essa linha divisória entre o amor e o ódio nem sequer passar pela tradicional linha de separação direita-esquerda: ele era tão odiado à direita como à esquerda!
Muito do fascínio do filme deve-se a Michel Bouquet, que compõe um ‘le President’ com alma. Os olhos de um actor são uma coisa assombrosa, porque é no seu olhar que se revela o modo como o actor encarna a personagem, e os olhos de Bouquet são muitas vezes o registo mais eloquente da sua representação.

Durante o visionamento do filme, lembrei-me que ele deveria ser de visão obrigatória, já não digo nas escolas, mas por todas as pessoas que vão ao cinema. Não tanto por causa do Mitterrand, mas por causa do filme em si. Sem presunção nenhuma, há uma coisa que me choca e que é que falta de capacidade de as pessoas assistirem a espectáculos cinematográficos que fujam aos dispositivos mais conservadores do cinema dito de entretenimento popular. Fui ver o filme do Cronenberg numa sessão da meia-noite do Dolce Vita, e o nível de comentários do pessoal que assistia ao filme (para já não falar na falta de educação que é passar o tempo todo a rir às gargalhadas e a falar em voz alta) era de uma pobreza atroz. As pessoas não são capazes de perceber uma ficção que não lhes seja contada através do recurso ao mínimo denominador comum da narrativa, e então reagem mal. Tudo que não lhes seja servido já mastigado e devidamente embalado é alvo do ridículo. Atrás de mim e ao meu lado, as pessoas, e não eram adolescentes, passaram o tempo todo, mas todo, a mandar bocas parvas ao filme. Ainda pensei que a representação da violência os calasse, mas não. Por isso me lembrei de que deveria ser obrigatório assistirem ao filme sobre Mitterrand. Para perceberem que há muitas maneiras de contar uma história, que há maneiras mais subtis, que exigem do espectador o pequeno esforço de pensar no que está a ver, que uma ficção se pode inscrever fora dos dispositivos mais convencionais dos géneros, e nem por isso ser uma seca. O filme de Guédiguian, como de resto o de Cronenberg, exigem ao espectador que veja as imagens sem se limitar a deixar-se embalar por elas.
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