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little freddie king
rosas
innersmile
O deus dos blues é um tipo particularmente generoso. Talvez seja de os blues serem uma expressão musical muito simples (simples no sentido de reduzido ao essencial), mas a verdade é que não é raro esse deus aparecer. Acho que nem tem tanto a ver com os músicos serem muito bons ou não, é mais aquela coisa de o deus dos blues estar lá no Olimpo dos deuses, de súbito repara que está a acontecer qualquer coisa de interessante cá em baixo, e lá vem ele todo lampeiro, a bater o seu pezinho e a sacudir a cabecinha de um lado para o outro.
Ontem à noite foi o concerto de abertura de mais uma edição do festival de blues de Coimbra, e o deus dos blues passou a maior parte da noite entre cortinas a divertir-se que nem um mafarrico (knock on wood). No palco, a Little Freddie King Blues Band, que além do Little Freddie na guitarra e voz, inclui Wack-O Wade na bateria, Anthony Lee Anderson no baixo e Bobby Lewis DiTullio na harmónica. Ao longo das duas horas e meia (ininterruptas, seguidinhas, sem cá aquela frescura dos encores, do sai e entra) não foram raros os momentos em que do palco do Gil Vicente escorreu música da pura, da mais purinha, daquela que eriça as terminações nervosas todas do cérebro. A música de LFK, a sua guitarra mais do que a sua voz, muitas vezes toca aquele ponto original, a fonte onde se inscrevem os blues na sua forma mais simples e elementar. O ponto, não exactamente onde confluem, mas mais de onde partem os sons que dão forma a géneros musicais como o country ou o rock’n’roll.
LFK é um mago, vê-lo tocar, tomar consciência de que o que ouvimos está a ser produzido ali mesmo, à nossa frente, é um assombro. Mas muito do prazer do concerto vem do perfeito entrosamento entre os músicos presentes. E se a secção rítmica é de uma eficácia à prova de bala, a harmónica de BLDT deu a necessária contra-resposta a LFK, que torna os blues a forma mais acompanhada da solidão.
Não sei se esta teoria é muito válida, mas como que há duas formas de ouvir a música popular (ou mesmo toda a música, mas não pensei muito nisso): com o cérebro e com o corpo. Normalmente, ouvimos um determinado tipo de música mais com o cérebro ou mais com o corpo. O jazz ouvimos mais com o cérebro. O R’n’B ouvimos mais com o corpo. O blues provavelmente é o género musical que ouvimos mais com o corpo mais com o cérebro mais com o corpo mais com o.. e por aí fora. É essa uma das setas mais certeiras dos blues: ao mesmo tempo que nos convidam o corpo para a dança, para a libertação, para o movimento, estão-nos sempre a apontar às emoções, estão-nos sempre a obrigar a pensar na nossa vida, a celebrar as nossas alegrias e a lamber as nossas feridas.


[esta entrada foi escrita a pensar na Petra, pessoa a quem o deus dos blues visita com à vontade, e de quem eu estou morto de saudades de ouvir cantar]
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