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innersmile
Como sempre as minhas leituras andam baralhadas. Neste momento (não neste preciso momento, mas enfim) leio mais afincadamente três livros.
O livro de mesa de cabeceira é A Última Saída para Brooklyn, de Hubert Selby Jr, numa edição muito bonita da Antígona. O mais espantoso neste livro, mais de quarenta anos depois de ser editado, é como ele conserva o sopro de subversão que transformou a sua publicação original num escândalo. Mesmo que, de algum modo, os nossos olhos já se tenham habituado ao estilo e ao tipo de conteúdo que o livro de Selby nos traz, ele lê-se com esse deslumbramento das vezes primeiras. Um livro fortíssimo, que consta de seis contos, independentes entre si, mas que partilham do mesmo universo físico e temporal, havendo lugares e personagens que transitam entre as várias histórias. O tema é o sexo e a violência, mas na verdade é uma certa miséria dos valores, a usura do capitalismo a apodrecer o sonho americano, em que tudo se mede pelo seu valor de transacção e pela sua capacidade de oferecer gratificação imediata. É, como se percebe, um retrato, em cru, de tempos que são os nossos. Mas o grande trunfo do livro, aquilo que o faz sobreviver ao tempo, é, como sempre acontece nos grandes livros, o milagre da linguagem, que no caso de Selby ora corre em torrentes ora se organiza de forma quase delicada (mau grado a crueza do tema), mas nunca pára, nunca se suspende, está sempre a progredir, a ir mais longe e mais fundo, e arrastando-nos com ela num misto de fascínio e repulsa.
Leio também o primeiro volume de Dias Comuns, o diário de José Gomes Ferreira. Nunca fui grande leitor de JGF, só há muito pouco tempo comecei a ler de modo mais consistente os seus poemas. As entradas do diário dividem-se em três grandes grupos: apontamentos poéticos sobre o quotidiano (mais do que apontamentos sobre o quotidiano poético), apontamentos da vida social e cultural do autor (de longe as entradas mais interessantes) e apontamentos amargurados da vida sob a ditadura.
E aos domingos de manhã fico na cama a ler um volume de contos intitulado As Lágrimas de Bibi Zanussi, da autoria de Pedro Gorski. Os contos têm a particularidade de serem de temática homossexual, alguns mais eróticos do que outros, o que não é muito frequente em autores portugueses. São bem escritos, o que também não é muito frequente neste tipo de literatura, apesar de alguns parecerem-me pouco resolvidos do ponto de vista narrativo. Ou então sou eu que embirro com histórias de teor naturalista que, nos últimos parágrafos, se resolvem através do recurso ao fantástico. Até agora, vou sensivelmente a meio, o meu conto preferido narra a história de um padre que se apaixona por um marrano, nos tempos da Inquisição. O conto está muito bem escrito, tem muito interesse histórico, e a história é absorvente. Será uma pena que um conto tão interessante fique meio perdido nas páginas de um livro que se dedica a um público muito *cof cof* especializado.
E pronto, espero que ninguém se tenha ofendido por eu ter feito uma entrada com uma lista de livros, nem fique a pensar que eu sou um intelectual de esquerda com a mania de que sou superior a todos aqueles, sejam ou não presidentes da república, que se dedicam à leitura mais sumarenta e incomparavelmente mais útil dos relatórios do banco mundial.
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