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(no subject)
rosas
innersmile
SOUVENIR

- Credo!, homem, parece que está morto.
A empregada sacudiu levemente o ombro do velho, que se manteve impassível, o olhar parado num ponto para lá do vidro da janela, na mancha verde das copas das árvores de um jardim próximo.
Tornou a empregada:
- Então, senhor José, não diz nada? Está tão parado porquê? Que olhar é esse?
No rosto do velho formou-se o mais breve sorriso, o sinal mínimo de vida, que sossegasse a empregada e fizesse com que ela o deixasse em paz.

Era uma noite tropical e nós descíamos uma avenida larga, ladeada de lojas de souvenirs vazias de turistas àquela hora. Tínhamos jantado num restaurante com um grupo grande de colegas e amigos, mas que decidiram regressar de autocarro ao hotel logo depois do jantar. Nós decidimos ficar na cidade, na verdade não havia nada para fazer na cidade, sobretudo àquela hora. Era uma pequena cidade de fronteira, perdida no meio do sertão, que viva apenas do, e para o tráfego. À noite fechava a fronteira e o mundo como que entrava em modo suspenso até à madrugada seguinte.
Não vale a pena explicar porque decidimos ficar na cidade. Aliás, nem tem explicação. A única razão minimamente interessante seria trocar ombros com a vida indígena, absorver um pouco da verdade local, tentar perceber um pouco como batia o mundo para além do vidro duplo dos autocarros auto-pullman e do ar condicionado dos hotéis. Claro que sabíamos que àquela hora a cidade só tinha três ou quatro espécies de habitantes. As meninas tristes que asseguravam a porta aberta das lojas de souvenirs. Meia dúzia de miúdos de ar miserável que transbordavam de casas sujas para a rua, atrás de cães de ar ainda mais miserável. Raros taxistas a dormir com a nuca dobrada para trás e a boca aberta, esperando pela manhã seguinte ou por gente tão inesperadamente absurda como nós. Índios de ar indigente, chupados pelo álcool e pelo fumo, que saíam dos vãos das portas e das guaritas das caixas automáticas dos bancos, para meter dois dedos de conversa. Aliás, é tão profundamente humano que todos os indigentes de todas as cidades do mundo escolham para guarita nocturna a aridez envidraçada dos bancos. Ao contrário, já não é mistério nenhum a razão porque são os únicos que não se surpreendem por nos verem, a nós e à nossa capacidade de estarmos tão despropositados no lugar e na hora.
O que nos trouxe à avenida nessa noite terá sido talvez a curiosidade de quem está de passagem. Mas o que nos prendeu a atenção foi o facto de essa avenida parecer ter o seu próprio céu. Um céu nocturno, totalmente ponteado de estrelas, cintilantes como longínquos semáforos galácticos. Mas sobretudo um céu tão inesperada e estranhamente abobado, um arco perfeito e nítido que se desenhava com rigor perto das nossas cabeças, que parecia partir dos traseiras das lojas que ficavam de um lado da rua e terminar em pleno parque de um stand de venda de automóveis em segunda mão.

Corremos as lojas de souvenirs, aproveitando a sonolência das meninas para encher um saco de inúteis lembranças para os amigos. E comprámos uma lata de chá mate, que nos serviu para prolongar em fumo amargo essa noite que o acaso nos ofereceu.
Mais tarde, já no hotel, tu fumavas à varanda. Talvez fosse da humidade excessiva, mas ver-te de frente para o abismo encheu-me os olhos de lágrimas. ‘Não é possível dormir com este ruído’, disseste. Incomoda-te? ‘Não, perturba-me. Parece-me que tenho um leão a ronronar dentro do cérebro.’ Estamos agora lado a lado, alinhados pelo muro do balcão. Trocas o cigarro de mão e quando a pousas, é sobre a minha que a deixas.

Na manhã seguinte, muito cedo, caminhei a pé até à garganta do diabo. A guia de serviço tinha-me contado a lenda, e por isso quando cheguei à pequena plataforma apinhada de turistas, furei até ao canto onde parece que a queda da água está à distância de um braço esticado. O tumulto da água à minha frente, tão próximo do rosto. Os sabores ao sal das lágrimas e ao doce da água misturando-se nos lábios. Uma exaltação extrema, uma comoção enorme. Num momento, tudo corria à minha frente como a água despenhada. Toda a minha vida, suspensa numa nuvem de vapor de água, ensopando-me o cabelo, a cara e os braços escorrendo, a camisa colada contra o peito.
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