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(no subject)
rosas
innersmile
No princípio do Verão de 1998, eu e mais três amigos passámos um dia a visitar as pequenas cidades, algumas pouco mais do que meia dúzia de casas espalhadas ao longo da estrada, que surgem ao longo do rio Mississippi num dos estados do midwest americano. Às tantas rebentou a discussão Europa vs. Usa dentro do carro. Eu estava no auge da minha tendência pró-americana, e os meus amigos tinham acabado de chegar com aquela mania da superioridade europeia de que os americanos são bebés ricos e brutos. Foi forte e feio, mas felizmente tudo acabou em bem, ou seja à hora e à mesa do jantar. Além disso, o tempo e a experiência encarregou-se de arredondar os argumentos mais angulosos: nem a Europa nem a América são já o que eram nesse mundo pré-11 de Setembro.
Lembrei-me dessa discussão este fim-de-semana, porque um dos meus argumentos para atacar a pretensa superioridade cultural europeia, era a nossa incapacidade em conseguir resolver os conflitos nos Balcãs, e o facto de termos estado a repetir em toda a zona da antiga Jugoslávia a barbárie que julgávamos extinta da Europa depois de Ialta e da criação da ONU. E que não resistiu meia dúzia de anos ao fim da guerra fria para voltar a emergir lá do subterrâneo infecto onde a escondemos.
Para quem tem falta de idade ou de memória, recorde-se que durante os anos 90, a Europa viveu sob o signo da guerra civil e do extermínio racial em massa. Na Croácia, na Bósnia e no Kosovo, europeus como nós, gente, como nós, habituada a citar os grandes filósofos e a ouvir a grande música, dividiu-se entre vítimas e carrascos, num exercício de horror que teve, em relação aos anteriores, a particularidade de ser transmitida em directo pela televisão. Eurovision, como no festival da canção.
Para muitos, este horror tinha uma face e um nome, os de Slobodan Milosevic. Que morreu nas celas do Tribunal Penal Internacional, em circunstâncias ainda não totalmente claras. Até nisto, parece que estamos a assistir a um remake de um filme passado na Segunda Guerra Mundial. Como li num jornal no fim-de-semana, no caso de ‘Slobo’ a morte chegou antes da justiça. Se calhar, ainda bem. Porque qualquer que fosse o veredicto do tribunal, esta morte poupa-nos a mais um pouco de hipocrisia the european way.