?

Log in

No account? Create an account

ali farka toure
rosas
innersmile
Li a notícia no livejournal da Petra, a correr, de passagem, que o dia de hoje foi longo e absorvente. Agora à noite, com mais calma, tive de ir ao site do All Africa para confirmar a notícia e tentar saber mais pormenores.
Fiquei muito triste. Mas uma tristeza assim mesmo de desgosto, tristeza miserável, de quem sabe que estamos irremediavelmente mais perdidos, sozinhos e desorientados. Tristeza de saudades, tristeza daquelas lágrimas que não chegámos a chorar.
E triste também de arrependimento. Por ter chegado tão tarde à sua música. E cheguei pela mão dos amigos. Pela mão da Petra, que pôs um post no livejournal a falar naquela forma apaixonada dela do concerto que ele deu num festival em Monsanto no Verão passado. E pela mão do Mário. Pela mão e pelo olho da câmara do Mário, que fotografou esse concerto, e que me deu pela primeira vez a ouvir a música. O Mário emprestou-me um cd, estávamos de férias no Algarve, eu cheguei ao quarto, pus o disco a tocar e foi até hoje. Paixão.
Vi uma entrevista que ele deu a um programa de televisão e, se já era apaixonado pela música, apaixonei-me pela pessoa, pela sua visão do mundo, aquela coisa ao mesmo tempo simples e profunda com que os africanos percepcionam o mundo. Vi um episódio da série sobre o blues que o Martin Scorsese fez, um episódio que acabava no Mali, em Niafunke, a sua terra natal e onde ele foi eleito presidente da câmara, e onde a sua música era apresentada como o elo mágico que une a música africana aos blues norte-americanos. Se bem que, para mim, a sua música é só África, não é elo nenhum, é só África, é só a negritude e a essencialidade de África. Eu ouço a sua música e é África que estou a ouvir, uma música que se ouve com o corpo, com os poros, com os músculos, com o coração a bombear o sangue que desata a correr e a saltar nas veias.
Escrevi um conto em que a música dele era uma das personagens principais, um conto em que falei de uma das coisas que me são mais íntimas e magoadas e dolorosas, um daqueles espinhos que trazemos cravados na garganta, e onde a sua música era o único e tranquilo contraponto de paz e felicidade. Porque havia na sua música uma paz e uma felicidade que eram cósmicas, um sentimento de comunhão com aquilo que trazemos cá dentro e ao mesmo tempo com aquilo que nos torna imensamente pequenos. Sim, a sua música era o som mais parecido que eu conheço com o infinito céu de uma noite de Verão estrelada. Uma noite africana, de um céu quente, escuro como breu, e no entanto iluminado por mais estrelas do que as que somos capazes de imaginar.
Cheguei tarde à música de Ali Farka Toure. Mas cheguei a tempo. A tempo desta tristeza de que hoje que Ali Farka Toure foi dar mais beleza e alegria à terra dos nossos ancestrais, este mundo dos vivos é um lugar incomensuravelmente mais pobre e desamparado.



O álbum com as fotos que o Mário fez do concerto de Monsanto está neste link. E hoje estas fotos ganham uma nitidez mais comovente. Eu, para dar rosto à tristeza, escolho esta.