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(no subject)
rosas
innersmile
Eu acho que é uma das marcas aqui do innersmile: reage sempre muito tarde às polémicas. Cada vez que há aí um assunto a ser discutido, passa uma enormidade de tempo até que eu consiga acertar meia dúzia de frases que façam, para mim pelo menos, sentido. Mas é mesmo assim, sou lentinho.
A maior parte das vezes, para falar com franqueza, custa-me ter uma opinião. À medida que vou pensando num assunto começo a ver-lhe ângulos insuspeitos. Muitas vezes tenho a tendência a concordar com as opiniões dos outros. O problema é que concordo com as diversas opiniões, mesmo quando elas são contraditórias. Mas o que é um facto é que a realidade é a cores, ou pelo menos tem uma gama infinita e subtil de cinzentos. Eu tenho em casa um tapete de seda, quer dizer, é uma miniatura de um tapete que está em cima de um móvel, e que conforme a perspectiva da luz e do nosso olhar, vai mudando de cor. O tapete é o mesmo e os meus olhos também, e a realidade é assim, conforme a luz que lhe bate e o lado por onde a olhamos, vai mudando de matiz.
Tudo isto a propósito do assassinato, no Porto, de um tipo que tinha a minha idade, que era travesti, toxicodependente, prostituto e não sei que mais. Só este esforço caracterizador já é usurário, e até aviltante. Os assassinos foram um grupo de rapazes entre os 10 e os 16 anos, residentes, se é que a expressão se aplica nestes casos, numa instituição dessas que recolhem miúdos de famílias problemáticas, ou de família nenhuma.
O que eu tenho visto e lido por aí é uma discussão que ora demoniza a vítima, atenuando a culpa dos rapazes, ora coloca a tónica no facto de os rapazes terem sido, para além de assassinos cruéis, como foram, motivados por sentimentos de ódio.
O ponto é que eu olho para uns e para outros e não sei o que me choca mais: se o facto de um homem ter sido espancado e torturado até à morte (ou pior, até ser abandonado para morrer), se o facto de que quem foi capaz de ter cometido um crime assim terem sido rapazes, ainda na infância uns, acabados de sair dela outros. Para mim, tão sem abrigo é um como os outros. Todos são ou foram desprovidos de qualquer tipo de abrigo, nomeadamente o abrigo que nos protege contra a miséria, que é, mais do que a falta de valores, a falta de valor. A falta de dignidade, de respeito, de amor pelos outros e por si próprio. Eu sei que isto pode soar ao discurso desculpabilizante das más-consciências, mas para mim são todos vítimas. Quer isto dizer que devemos perdoar a esses rapazes que cometeram tal acto? Não, só quer dizer que culpados somos nós, que somos capazes de viver tranquilamente numa sociedade, numa cidade, que cria estas oportunidades para o horror.
Não consigo trazer este caso para a discussão dos crimes de ódio. Que, a propósito, eu acho que devem ser tipificados e punidos como tal pela lei penal. E, não, eu não acho que prender alguém que mata o outro porque ele é preto ou branco ou bicha ou transexual ou judeu ou muçulmano ou cristão, seja atentar contra a liberdade de expressão. No mínimo, o motivação para o crime baseada no ódio dirigido a uma pessoa enquanto abstracto representante de uma categoria qualquer (de uma categoria política, digamos assim), por oposição ao crime baseado em razões pessoais, dirigidas àquele indivíduo em concreto, no mínimo, dizia eu, essa circunstância deveria qualificar de modo agravante a conduta criminosa.
Mas, como dizia, não consigo trazer este caso para essa discussão. Porque não consigo conceber que um grupo de rapazes seja capaz de odiar alguém, por ser homossexual, ou transexual, ou toxicodependente, ou prostituto ou seja lá o que for. E já disse e repito que não estou a desculpabilizar um grama que seja quem foi capaz de cometer um crime tão bárbaro. Mas não vejo ódio, ou pelo menos esse ódio de marca política. Vejo embrutecimento. Vejo miséria. Vejo total ausência de valores, de dignidade, de respeito, de amor. E francamente isso ainda me choca mais do que se visse ódio. Porque, se fosse esse o caso, não me sentiria nem um pouquinho responsável. Mas assim, sinto-me culpado. Parece-me que sou eu o dono do circo, que fui eu que atirei a vítima e os seus algozes para a arena. Escolher um lado, achar que neste caso uns têm mais razão do que outros, que há bons de um lado e maus do outro, seria sacrificar o meu último reduto de dignidade – essa de ter a aguda certeza de que tanto o tipo que morreu como os tipos que o mataram são, apesar de tudo, iguais a mim.