February 24th, 2006

rosas

capote

Não consigo ter distância nenhuma em relação a Capote, o filme de Bennett Miller que tem trazido a glória (merecida, lá iremos) a Philip Seymour Hoffman. Truman Capote é um dos meus heróis literários, talvez tenha sido mesmo o primeiro, desde que li pela primeira vez In Cold Blood há muitos anos, aí pela segunda metade da década de 80. Mas mesmo nessa altura, Truman, que morreu em 1984, era já um dos meus heróis, que eu conhecia por ser uma celebridade, por ser gay, e por ter sido o tipo que escreveu a novela que deu origem ao filme Breakfast At Tiffanys. Numa altura em que eu ia muitas vezes a Londres fui aproveitando para me abastecer dos livros do Truman, que por cá era pouco editado, mas de igual forma comprava o que ia saindo por cá, razão porque, não tendo Capote muitos livros editados, tenho muitas colecções de contos, de artigos, de ensaios, com coisas repetidas. Entretanto, ainda li pelo meio a belíssima biografia que Gerald Clarke escreveu, e que serviu de base ao filme agora estreado.
Não sou, por uma questão de feitio, aquele tipo de pessoa que aprende tudo acerca dos seus heróis. A minha curiosidade esgota-se numa certa necessidade de apreender o bastante que me permita orientar nos meus gostos, nas minhas leituras. Por isso, tirando os livros, nunca me preocupei muito com a iconografia ‘capoteana’, dele conhecendo pouco mais que os retratos que vinham publicados sobretudo na biografia que referi (e uma foto dele que foi capa de um disco dos Smiths, claro). Isto para dizer que fui muito surpreendido pelo retrato físico que o PSH faz do Truman Capote no filme. Quer dizer, aquele tipo físico, os maneirismos, a maneira de falar, aquele misto de inocência e petulância, tudo isso, analisado agora depois de ter visto o filme, faz perfeitamente sentido, mas confesso que nunca me tinha entretido a pensar como é que el poderia ser, ou ter sido, e como nunca vi imagens gravadas ou registos sonoros, aquilo surpreendeu-me um bocado. Palavra de honra, a minha principal reacção foi ‘que irritante que este gajo era’, o que é um pouco traumático se estamos a falar de uma pessoa que admiramos e que nos fascina.
Mas se este aspecto físico me surpreendeu, há outra coisa que o filme me devolveu de um modo muito parecido com o que era a minha representação. Eu sabia vagamente que o filme se focalizava no processo (longo e, veio-se a constatar depois, definitivamente traumático para o escritor) que rodeou a escrita de In Cold Blood, mas não sabia até que ponto esse processo constituía todo o programa do filme. E realmente é espantoso que o filme nos devolve o tipo de clima, de perturbação, de transtorno, que causou a leitura do livro. Aquela sensação de que houve ali alguma coisa que perturbou muito o escritor, e que o livro, tanto ou mais do que sobre os seus temas e os seus objectos e os seus personagens, é muito um livro sobre quem o escreveu. E isso, como digo, o filme dá de forma admirável, através de uma narrativa muito sombria, muito contida, em que as coisas são sempre mais sugeridas do que narradas ou mostradas. A utilização do close up e do plano e contra-plano cria um ambiente de confronto que chega a ser agressivo.
O desempenho de PSH é realmente extraordinário. Mas atenção, que muito mais do que por aquilo que mostra, o que torna esse desempenho tão extraordinário é precisamente tudo aquilo que ele não mostra, as expressões subtis carregadas de intensidade sob um manto de impassibilidade, como se o Truman Capote que decide investigar e escrever sobre aqueles crimes fosse o produto de uma construção do próprio escritor, um boneco que ele criou para conseguir sobreviver (para ‘adapt and adjust’, como se diz em linguagem evolucionista), que de repente, confrontado com a pessoa de Perry Smith, se começa a desfazer por dentro.
O que Capote, o filme, nos transmite de forma tão perturbadora, e que não prescinde do notabilíssimo trabalho de PSH mas o transcende, é o encontro, e o confronto, e a ruptura que isso provoca, de um homem com o seu fantasma.