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(no subject)
rosas
innersmile
Já devo ter falado dele aqui no innersmile dezenas de vezes, mas como isto é meu posso fazer aqui o que me apetece. Além de que como estou a ficar (mais) velho, é natural repetir-me e estar sempre a dizer as mesmas coisas. Mas vamos ao que interessa: o Rui Knopfli é um dos meus poetas preferidos. Conheço-o desde sempre, convivo com o seu nome desde antes de conhecer a sua poesia. Em 1974, poucos meses depois do 25 de Abril (é estranho, eu ia escrever “no Verão de 74”, mas depois tomei consciência que essa expressão não faz sentido se estamos a falar de Moçambique), fui passar férias a Lourenço Marques, e o meu primo, poucos anos mais velho do que eu mas os suficientes para, na altura, já estar noutra, passava os dias a ler e a recitar os poemas de Mangas Verdes com Sal. A primeira vez que fui à livraria da Associação Académica, quando entrei para a faculdade em 80, e que na altura funcionava onde é actualmente o bar da AAC, comprei, do Knopfli, O Escriba Acocorado, na edição da Morais, que ainda tenho lá em casa. Numas férias no Algarve comprei, numa livraria em Portimão, o último livro dele, O Monhé das Cobras. Mas o grande big bang da minha relação com a poesia do Rui Knopfli aconteceu depois da minha ida a Moçambique, em Janeiro de 2003. Sobretudo na Ilha, onde me lembrei muito do livro A Ilha de Próspero, e onde, no Restaurante Relíquias, peguei numa colectânea de poemas e outros textos dedicados à Ilha, e os poemas de Knopfli pareciam fazer um sentido pleno, aliás faziam sentido à luz do lugar, e davam sentido ao lugar.

Regressei de Moçambique completamente obcecado com a poesia de Rui Knopfli. Pouco tempo depois, comprei uma edição da Poesia Completa, editada pela INCM, e que me permitiu tomar contacto com toda a sua poesia publicada. Li ensaios e recensões críticas, Comecei a pôr poemas num site da Internet. É um dos milagres da poesia quando encontramos uma voz que nos ajuda a compreender o mundo e a vida, a perceber melhor os outros e a conhecermo-nos melhor a nós próprios. Escrevi uns mal-amanhadíssimos poemas que não resistem a uma segunda leitura, mas que são totalmente de inspiração knopfliana.

Não consigo apontar com rigor porque é que gosto tanto dos seus poemas. Quer dizer, será por uma multiplicidade de razões, e que passam, logo à partida, por essa comunhão do lugar de origem, por uma certa experiência de desenraizamento, a sensação de que a pátria de que se é por fora não é a mesma pátria de que se é por dentro. Mas também porque há na voz do Knopfli uma racionalidade (arquitectónica) que esconde, e é fracturada, por um lirismo extremo; porque é uma poesia contemplativa, de quem está sempre a olhar para o mundo porque sabe que essa é a forma mais directa de olhar para si. Porque há na poesia de Knopfli uma contenção, uma subtileza, mas que nos deixa ver que por detrás desse registo sóbrio há excesso, há águas que transbordam, há um maravilhamento quase infantil. E essa dualidade de registos, e a tensão que se forma entre eles, seduz-me muito. Porque, de certa forma, é também assim que me sinto.

Apesar de lidar com a poesia de Rui Knopfli quase diariamente (há quem leia um pedacinho dos Evangelhos todos os dias), é sempre um clarão quando o vejo por aí. É que a relação com um poeta tão secreto, ou tão esquecido e abandonado, não sei, como o Knopfli, é que é sempre uma coisa muito pessoal, muito íntima, muito nossa. Quando ele aparece à nossa frente pela mão dos outros, é uma felicidade. Parece que estamos a ler o poema pela primeira vez.

Foi isso que aconteceu um dia destes quando o Eduardo Pitta pôs, no blog Da Literatura, o poema Aeroporto, com uma fotografia do Kok Nam, e a propósito da polémica que causou a publicação no jornal A Savana, dirigido pelo fotógrafo moçambicano, dos famosos (infamous, diria em inglês) cartoons. É um poema fabuloso, magnífico, atravessado por uma dor impossível de dizer. Já li o poema dezenas, centenas de vezes, já o copiei, já o pus on-line, já o disse em voz alta. Mas posto ali por baixo de um auto-retrato do Kok Nam, lido assim sem aviso prévio, percebe-se como o poema, quando é absoluto, mantém-se impoluto pela usura do tempo, sem desgaste, sem uma aresta mais esfolada, nada. Ali, inteiro e novo como da primeira vez.

No dia seguinte a pôr o poema no blog, o Eduardo Pitta fez nova entrada a explicar a um leitor porque é que Rui Knopfli tinha sido expulso do Moçambique por delito de opinião. O Eduardo Pitta transcreve um excerto de um e-mail desse leitor onde se pergunta: «quem é esse senhor Knopfli…», e, muito bem, recusa-se a dizer quem é Knopfli e o lugar que ele ocupa na literatura portuguesa. Mas a pergunta é tão injusta e dolorosa, tão rude e agreste, que eu tive de fazer esta entrada para me sentir mais sossegado.
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