February 17th, 2006

rosas

syriana

Imagine-se um documentário da National Geographic, da série ‘grandes predadores sanguinários’. Imagine-se que um particular episódio aborda o estado da economia global no dealbar do Século XXI, focando a sua atenção nos três maiores reis da selva: a corrupção governamental, os negócios energéticos, e o terrorismo islâmico.
Basicamente é isso que se passa durante as cerca de 2 horas de Syriana, uma produção de Steven Soderbergh e George Clooney, escrito e realizado por Stephen Gaghan. Gaghan já tinha escrito Traffic para Soderbergh, e este Syriana aproxima-se desse filme em termos de conceito e estrutura, adoptando o mesmo estilo de contar várias histórias em paralelo, cada uma delas representando as várias faces do mesmo monstro, convergindo para um momento de clímax em que as coisas se redefinem, quase sempre de forma violenta. E tal como em Traffic, o olhar de Syriana sobre a indústria do petróleo e o seu papel motor no mundo, é crítico e desencantado, sem todavia ser cínico.
Syriana é claramente um filme político (também como Traffic já o era), mas isto não equivale a dizer que é um filme de esquerda, como tem sido visto sobretudo pelos sectores mais conservadores nos Estados Unidos. Mas provavelmente é um filme que precisa de uma certa distância em relação às regras de funcionamento do capitalismo, que só a esquerda (ou a direita muito radical) consegue alcançar. Mas é um filme que trata de importantes e decisivas questões de poder no mundo actual, e trata-as sob um olhar crítico, como que dizendo que aquilo que nos alimenta é aquilo que nos destrói.
Agora é interessante perceber, e analisar, como o cinema norte-americano, normalmente conotado com a indústria do entretenimento puro e duro, tem sido marcado por olhares muito políticos, dirigidos em primeiro lugar à própria América, mas que, mercê do mundo globalizado e do papel preponderante, de potência imperial, que os EUA assumiram nesta nova ordem mundial pós guerra fria, servem de barómetro à situação do mundo todo. Provavelmente, porque a administração Bush provocou um efeito tão devastador na carne da própria América, naquilo que essencialmente a definia e estruturava, que o próprio cinema se vê obrigado a sair do recesso de entretenimento popular que prefere, para se chegar à frente e fazer o seu statement. Provavelmente também porque o cinema, como as outras formas de cultura, pressente, e dá testemunho, de que essa nova ordem mundial tem o seu prazo de validade esgotado, e foi uma fórmula que disseminou a possibilidade de conflito e o perigo e a insegurança, a todo e qualquer recanto do planeta, por mais remoto que pareça. Provavelmente ainda, porque nunca o conflito no Médio Oriente esteve tão explosivo como na actualidade, fundamentalmente porque o petróleo se está a tornar num bem cada vez mais escasso e mais precioso. O barril está a acabar, e não se vislumbram alternativas capazes de segurar a economia e o funcionamento do mundo, sim, que o nosso mundo funciona a petróleo! Os governos e as empresas começam a aceitar pagar qualquer preço para as tirar do sufoco e do desespero. Mesmo que, por vezes, esse preço seja pago num horror tão absurdo que custa nomeá-lo.