February 15th, 2006

rosas

(no subject)

O dia dos namorados já foi ontem, mas é sempre dia de falar em canções de amor. Cole Porter escreveu algumas das mais simples, mais perfeitas e mais intemporais canções de amor. Não sendo um compositor tão inspirado como Gershwin, por exemplo, tinha duas enormes qualidades. Uma, era a de escrever também as letras para as canções, e uma das características que tornam essas canções tão perfeitas, é essa de as palavras e a música serem tão fundidas umas na outra; cada melodia leva as palavras certas, e cada verso é sempre uma frase musical. A partir de certa altura é quase impossível dissociar as palavras e a música, de tal forma elas são, não as duas faces de uma moeda, mas verdadeiramente 1+1=1.
A outra qualidade era Porter ter muito mundo, ser um tipo que conhecia a sofisticação da alta sociedade, o lado bom da vida, as bolhinhas do champanhe, mas que também sabia, e experimentava, que a alma humana tem abismos, que o sublime e o sórdido andam muitas vezes de mãos dadas, que a vida é como as máscaras do teatro, dependendo da sua posição os lábios tanto marcam o sorriso como o choro.
E é esta característica que torna únicas as canções de Cole Porter, que nunca são ingénuas ou extasiadas, mas que são sempre, ou quase sempre, atravessadas por uma sombra, por uma fractura, que contrasta com a leveza e simplicidade das melodias.
Há exemplos e exemplos. Love For Sale é uma canção excepcional, que de uma forma quase insuspeita nos fala do amor que se vende. Begin the Beguine é uma canção complexa em que a luxúria quente da melodia disfarça, sem esconder, a melancolia do amor perdido. Miss Otis Regrets ou Every Time We Say Goodbye são canções de uma tristeza pungente.
Mas a canção que me trouxe hoje a esta entrada é In The Still of The Night. Sempre que me lembro dessa canção, ou quando a ouço, a versão que sempre toca na minha cabeça é a dos Neville Brothers, no disco Red, Hot & Blue. Como tantas vezes acontece, a superfície da canção é leve, romântica, em que a noite e a lua aparecem a cumprir o seu papel, o de evocar o amor puro e ingénuo. Mas a voz melancólica de Aaron Neville ajuda-nos a prestar atenção, e a perceber que afinal a canção não é uma simples evocação do amor. O que o silêncio da noite nos traz é antes a dúvida, a incerteza, a angústia, o medo do amor não correspondido.

In the still of the night
as I gaze from my window
at the moon in its flight
my thoughts all stray to you.

In the still of the night
while the world is in slumber,
oh, the times without number,
darling, when I say to you

"Do you love me as I love you?
Are you my life-to-be, my dream come true?"
Or will this dream of mine
fade out of sight

like the moon growing dim
on the rim of the hill
in the chill still of the night?