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brokeback mountain
rosas
innersmile
Confesso que estou aqui um bocado à nora sem saber muito bem como pegar em Brokeback Mountain, o filme de Ang Lee que tem sido a sensação da temporada. Dizer que gostei do filme parece curto, e dizer que é bom parece sempre ser um pouco evasivo. A verdade é que o filme merece mais do que isso. Mas também devo dizer que me parece que o filme tem gerado mais polémica do que merece. Eu percebo as razões dessa polémica, e que têm a ver com a subversão que a questão da homossexualidade introduz no filme. A vários níveis: porque parece subverter um género que é o da afirmação da virilidade por excelência, porque põe actores que são heartthrobs, o que antigamente se chamavam os galãs, a fazerem papeis que comprometem essa imagem, sobretudo junto do público adolescente, que é o principal consumidor de cinema made in Hollywood, e porque é das raras vezes que a homossexualidade é colocada no centro de um filme do mainstream (na generalidade dos filmes onde a homossexualidade é tema, é-o sempre de uma forma lateral em relação à acção). Mas, como dizia, percebendo as razões da polémica, sempre se pode dizer que ela parece injustificada, porque o filme é em si pouco subversivo, pelo contrário, é um filme que nunca contende as regras do género, que cumpre com um rigor que por vezes desencoraja o seu programa.
Na verdade, BM é muito menos um western do que um melodrama, e o que me parece é que o facto de pegar nessa imagem mítica do Marlboro Man provoca essa confusão. Tratar-se-á quando muito de um melodrama disfarçado de Western. E é um pouco por isso que a questão da homossexualidade parece mais subversiva do que na realidade o é, porque o que interessa sobretudo ao filme é a história de um amor que fica sempre por se realizar de forma plena porque nunca consegue ultrapassar todas as barreiras que se lhe opõem. Dizer que a questão da homossexualidade não subverte o género não é menosprezá-la. Esse é, na minha opinião, o principal interesse do filme: a questão da homossexualidade, ou seja de um amor que é homossexual e por isso foge da norma, está, como já referi inicialmente, no cerne do filme, é o motor da acção, é aquilo que justifica esta história tal como ela nos é contada. Se o amor que liga os dois protagonistas não fosse de natureza homossexual, o filme não seria este, seria uma outra história. Mas o que verdadeiramente interessa não é facto de o amor ser homossexual, mas sim a forma como essa circunstância constitui uma barreira àquela relação amorosa, e o modo como os protagonistas, a sua história e a sua vida, é afectada por ela.
Penso que um dos aspectos interessantes do filme passa pelo facto de o realizador não ser homossexual, e por isso o olhar que deita aos acontecimentos não ser contaminado por essa condição. Isso parece-me particularmente evidente na deserotização das cenas de sexo entre Jack e Ennis. E é curioso, porque à partida eu achei que esse seria um ponto desfavorável do filme, esse olhar tão seco e desprovido de, falta-me outra expressão, ‘tesão’ nas cenas de amor entre os dois homens. Mas na realidade acrescenta ao filme, porque de certa forma não faz divergir a atenção daquilo que é essencial ao filme, e que é a forma como aquele melodrama se vai desenrolando. Isso é que é fundamental, repito, o modo como uma relação amorosa é amaldiçoada por uma circunstância particular. Esse é o ponto do filme.
Essencial à lógica do melodrama é o traço rigoroso como as personagens são desenhadas. E mais uma vez, Ang Lee surpreende, ao optar pela solução menos óbvia de não dar muita espessura psicológica às personagens. Isso é sobretudo mais evidente em relação à personagem de Ennis. Não sei se é correcto dizer que Ennis é o fio condutor da história, mas é digamos o seu barómetro, é Ennis que nos dá a medida do drama que une, contra toda a lógica, dois cowboys numa relação amorosa. E é a composição admirável de Heath Ledger, o seu olhar sempre esquivo, ao mesmo tempo assertivo e assustado, que nos diz que estamos fundamentalmente perante uma história de solidão, de renúncia, de uma melancolia sofrida e, pode-se dizer, mortal.
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